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sábado, 28 de fevereiro de 2015

Conjuntura



I.

Do dicionário Caudas Aulete online:


conjuntura (con.jun.tu.ra) sf.


1. Situação não duradoura, resultante da combinação de diversos fatores ou circunstâncias: A atual conjuntura econômica é um desastre.: "Seus próprios pais com ela se aconselhavam nas conjunturas difíceis." (Franklin Távora, O matuto))
2. Fato, acontecimento, ocorrência que modifica ou caracteriza determinada situação concreta.



terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Precisamos falar sobre Olavo

O astrólogo Olavo de Carvalho, na Veja.

Um dia desses, compartilhei esse texto do Diário do Centro do Mundo sobre o autointitulado filósofo e ex-astrólogo Olavo de Carvalho. Dentre os comentários ao texto, um grande e inteligentíssimo amigo - daqueles que fazem você ainda ter vontade de permanecer no Facebook - ofereceu-me uma peça para a reflexão: a fama do pensador conservador é responsabilidade de seus seguidores, apelidados de olavetes, mas também da esquerda dá ibope para ele, rebatendo as coisas que ele diz, que são evidentes inverdades, baseadas numa percepção simplista da relação de forças entre esquerda e direita. Segundo esse amigo, Olavo tem ideias tão fracas que deveria ser ignorado pelos seus detratores.
Eu penso o exato contrário, e esse texto serve pra explicar o porquê.


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Conservador não precisa de diploma pra ser imbecil


Boa parte da minha revolta com o pensamento conservador e o liberalismo econômico não reside no fato de eu ser abertamente esquerdista. O meu problema com esses "pensadores" é que eles são egoístas. Não, isso não é um julgamento: a pessoa que defende a primazia do pensamento individual sobre o pensamento coletivo é simplesmente um egoísta. Essa pessoas fazem uma suposta profissão de fé na capacidade do indivíduo que, olhando de perto, é apenas uma descrença completa na humanidade como ente coletivo. Sociedades pra eles são indivíduos lutando até a morte pelo seu quinhão, não grupos buscando o que pode ser melhor para todos. Direitos são mercadoria tanto quanto deveres, e o mercado que os regule. Por isso a maioria deles acredita ao mesmo tempo em Deus e na mágica do Mercado Autorregulador. E vão buscar Deus na Igreja, claro, uma instituição comunitária!

Pior de tudo é que toda essa demagogia não contribuiu em nada pra humanidade. Serviu apenas para acirrar preconceitos e munir gente desonesta e mal intencionada em sua missão de acabar com as liberdades das minorias. Pode-se falar a merda que quiser do socialismo mas, como bem apontou em entrevista já antiga o grande Antônio Cândido, o socialismo permitiu que trabalhadores tivessem direitos. O capitalismo que esses senhores defendem nunca previu dar direitos a ninguém.
Quando perguntado se era socialista, o eminente intelectual disse:



Ah, claro, inteiramente. Aliás, eu acho que o socialismo é uma doutrina totalmente triunfante no mundo. E não é paradoxo. O que é o socialismo? É o irmão-gêmeo do capitalismo, nasceram juntos, na revolução industrial. É indescritível o que era a indústria no começo. Os operários ingleses dormiam debaixo da máquina e eram acordados de madrugada com o chicote do contramestre. Isso era a indústria. Aí começou a aparecer o socialismo. Chamo de socialismo todas as tendências que dizem que o homem tem que caminhar para a igualdade e ele é o criador de riquezas e não pode ser explorado. Comunismo, socialismo democrático, anarquismo, solidarismo, cristianismo social, cooperativismo... tudo isso. Esse pessoal começou a lutar, para o operário não ser mais chicoteado, depois para não trabalhar mais que doze horas, depois para não trabalhar mais que dez, oito; para a mulher grávida não ter que trabalhar, para os trabalhadores terem férias, para ter escola para as crianças. Coisas que hoje são banais. Conversando com um antigo aluno meu, que é um rapaz rico, industrial, ele disse: “o senhor não pode negar que o capitalismo tem uma face humana”. O capitalismo não tem face humana nenhuma. O capitalismo é baseado na mais-valia e no exército de reserva, como Marx definiu. É preciso ter sempre miseráveis para tirar o excesso que o capital precisar. E a mais-valia não tem limite. Marx diz na “Ideologia Alemã”: as necessidades humanas são cumulativas e irreversíveis. Quando você anda descalço, você anda descalço. Quando você descobre a sandália, não quer mais andar descalço. Quando descobre o sapato, não quer mais a sandália. Quando descobre a meia, quer sapato com meia e por aí não tem mais fim. E o capitalismo está baseado nisso. O que se pensa que é face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele com suor, lágrimas e sangue. Hoje é normal o operário trabalhar oito horas, ter férias... tudo é conquista do socialismo. O socialismo só não deu certo na Rússia.


Por quê?


Virou capitalismo. A revolução russa serviu para formar o capitalismo. O socialismo deu certo onde não foi ao poder. O socialismo hoje está infiltrado em todo lugar.

O destaque em negrito na resposta de Cândido é justamente o que o pensamento conservador renega. E isso fica evidente em qualquer texto que você leia, desde os micos de circo como Reinaldo Azevedo e Olavo de Carvalho até aqueles que se acham sérios, como os membros de um certo Instituto que tiveram a pachorra de publicar um texto intitulado "A obrigatoriedade do diploma - ou, por que a liberdade assusta tanto?" O texto é de 2009 mas só trombei com ele hoje por conta de meu irmão, jornalista de formação, e como ele fiquei abismado. Pra começar, o conceito de liberdade deles é uma abominação tão grande que chega a dar nojo.

Segundo que ele defende algo que não faz o menor sentido: o fim dos diplomas. Para esses conservadores o ser humano é tão autossuficiente, tão capaz, que ele deve gerir sua própria educação, independente de instituições, que para eles só servem para "perder tempo e dinheiro sendo doutrinado e estupidificado em cursos de ciências humanas". A solução é a educação caseira, já que no mundo de hoje "com a quase universalização da internet, qualquer um está preparado para estudar por conta própria, desde que esteja munido do impulso genuíno para tal." Eu poderia passar dias explicando porque isso é um absurdo, mas eu prefiro dar a palavra a meu irmão que rebateu esse texto muito melhor que eu no facebook:


Muito bem. O STF revogou a exigência do diploma de jornalismo (eu sou formado em jornalismo, inclusive), porém, o autor do texto esquece de mencionar que a revogação foi um pedido da ANJ, a Associação Nacional dos Jornais. Ou, como nós da área costumamos dizer, a Associação Nacional dos PATRÕES de Jornais. Foi uma entidade patronal que exigiu que o diploma não fosse mais obrigatório. O que uma entidade patronal quer, dentro do próprio sistema de livre mercado que o autor tanto defende? Lucro. Ou seja, a decisão não foi com a intenção de liberdade de expressão, nem pela liberdade dos profissionais não-diplomados. Foi apenas baseada em lucro, puro e simples.
Pois bem, mesmo assim, eu não discordo completamente da medida. Eu sou formado em Jornalismo e não acho que o diploma de jornalista tenha que ser obrigatório para o exercício da profissão. Acho que ele pode ser um diferencial, mas não vejo a necessidade de ser obrigatório.
Agora, dizer que TODAS as profissões poderiam existir sem a regulamentação e obrigação de um diploma, é algo que só mesmo na cabeça de alguém que acredita que o Livre Mercado pode regulamentar todas as coisas funciona. 
Vamos ao caso mais fácil de se criticar, primeiro: Medicina. Profissionais diplomados de medicina cometem erros? certamente. Desobrigar o diploma de medicina, criaria, no mínimo, dois enormes problemas.
1) Uma pessoa que nunca sentou nos bancos de uma universidade de medicina, e tentou aprender tudo de outras formas, só pode comprovar sua perícia de uma forma: na prática. Ou seja, vamos esperar que ele mate umas 30 pessoas nas mesas de operações, até que o livre mercado "regule naturalmente" esse profissional, o excluindo por ele ser um mal profissional. As 30 pessoas que morreram na mesa de operação até que isso acontecesse que se danem né?
2) Uma empresa (pública ou privada) que precise de profissionais de medicina, jamais iria escolher um profissional não-diplomado, justamente pelo risco dito acima. Ou seja, não iria fazer nenhuma diferença. O diploma continuaria sendo obrigatório, apenas extra-oficialmente. Ele poderia continuar exercendo sua imperícia "até aprender" em seu consultório. A única garantia que a empresa teria desse profissional é sua atividade prática.
Quanto a todas as outras profissões que exigem diploma, é fácil ver a mesma coisa. Um profissional ruim mancharia toda a classe? Será mesmo? Ora, isso JÁ ACONTECE no Brasil e no resto do mundo, e em quase todo lugar não é isso que se vê. Policias matam pessoas a torto e a direito, mas eles continuam sendo chamados pra ocorrências, porque? Porque não temos escolha. E nós não temos escolha dentro de um nível de classe trabalhadora.
Se você vê mil médicos matando gente em mesas de operação, quando você tiver uma doença grave, vai recorrer a que? Sua ÚNICA opção, continua sendo os médicos, sejam diplomados ou não. Esse argumento de que um profissional ruim mancharia toda a classe, obrigando-a a se auto-regular não faz o menor sentido, porque quando falamos de classe trabalhista, falamos de um setor inteiro da sociedade, e você não tem opção de decidir por outro. Se a classe médica esta manchada, você não vai subitamente parar de ir a médicos. Porque ou você se trata com eles, ou morre. Simples assim. Não adianta nada você estimular concorrência, se o nível do estímulo é a nível de classe. Só existe uma classe em cada profissão. Não existem duas classes de médicos, apenas uma, com vários sub-níveis.
Quanto a cursos "puramente teóricos", quando o autor diz que "os professores apenas escrevem em um quadro e passam livros-texto" e que isso pode ser substituído pela internet, o autor indiretamente está defendendo o modelo educacional sócio-construtivista (que os próprios neo-liberais são contra). Por este método, alguém é capaz de aprender sozinho, se ir atrás sozinho. Pra que isso aconteça, é preciso que alguém tenha a tenacidade de um gênio. Ou você acha MESMO que é possível alguém aprender Física Nuclear sozinho, sem professor, apenas com livros? É claro que é possível. Pra gênios. O resto dos mortais precisa de um mediador, o professor, pra fazê-los entender.
Quando o autor defende que tudo pode funcionar pela concorrência do livre mercado, mesmo permitindo a oferta de "aulas práticas" a profissões que precisem disso, o autor esquece que, em alguns casos, estamos falando de vidas. Você não pode esperar que um profissional de Medicina não-diplomado aprenda matando algumas pessoas até que finalmente ele possa ter a perícia necessária pra trabalhar. Porque sim, meu amigo, um profissional de medicina não é formado só com aulas práticas. Se ele tiver apenas aulas práticas, uma grande maioria vai continuar sendo um péssimo profissional, pela falta de fundamentação teórica.
O mesmo ocorre com Psicologia, que o autor também citou. Você não pode deixar um psicologo não-diplomado aprender ferrando a mente de algumas dezenas de pacientes depressivos, bipolares, com distúrbios psicológicos leves, médios ou graves, até "aprender" e poder concorrer com seus serviços no livre mercado.
Não é possível aplicar o Livre Mercado em profissões cujo erro resulta em dano irreversível ou morte dos seus "clientes".
Se alguém realmente acredita que é possível aplicar o livre mercado em qualquer coisa, essa pessoa precisa sair da clausura que vive e andar um pouco por ai, olhar ao redor, e ver que o mundo não gira em torno do livre mercado. E sim, das pessoas.


Não sei se preciso dizer mais algo, mas eu faria apenas um adendo: tire a obrigatoriedade da escola e ganhe trabalho forçado infantil. Liberdade é ter o direito de estudar, o dever é apenas o exercício da cidadania básica. Outro modelo geraria uma diferença de classes ainda maior que a que já temos, onde somente os donos do capital econômico e, por conseguinte, do capital cultural teriam seus filhos educados e o cidadão pobre não teria acesso algum à qualquer tipo de educação. Isso só geraria um retorno ao trabalho forçado imposto pelos pais, já que educar a criança passaria a não ser nem mais um bem acessível. Lutamos anos contra isso e é isso que queremos?

Mas tudo bem, você pode entrar lá no portal do "instituto" e ver outros impropérios diversos, todos clichês e bobagens repetidos a exaustão - porque toda falácia se torna verdade quando repetida ad nauseam. O texto em questão nem assinatura tem, o que soa estranho pra um grupo tão individualista, né? Aliás, se o individualismo é tão bom, porque montar um grupo? Não era mais adequado às suas filosofias cada um ir pra sua casa, estudar e lançar seus textos num blog pessoal? 

O conservadorismo e o liberalismo econômico são tão, mas tão errados que chegam a parecer piadas... de extremo mal gosto.



sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Eu não sou conservador

Retirado do genial Olavo da Depressão.

Vi um interessante vídeo ontem de um desses vlogueiros semi-profissionais sobre antiteísmo. Não concordo com todas as palavras do senhor Pirulla, mas uma coisa que eu gostei foi a alegoria da mola, que serve muito bem ao que pretendo expor aqui. A ideia é que as minorias oprimidas funcionam como uma mola que é pressionada até o limite e num dado momento, se expande de uma vez, porém essa expansão se dá violentamente e para além do estado de repouso inicial da mola. Da mesma forma, no exemplo do vlogueiro, os ateus viveram séculos de opressão até um dado momento em que decidiram se expor de maneira agressiva e com algumas atitudes que ultrapassam o limite que eles mesmos deveriam se impor.
Acho porém que poderia compor, a partir daí, um sistema de duas molas opostas: enquanto uma se expande, por vezes, outra se contrai no sentido oposto. Esse sistema, pra mim, explicaria o crescimento do conservadorismo no Brasil.
Desde pelo menos a década de 50 vimos um crescimento nunca antes presenciado dos direitos civis e das minorias oprimidas no mundo. Mulheres, negros, gays e outros adquirem dia após dia mais direitos e espaço na sociedade, bem como novas posturas acerca de temas anteriormente censurados pela moralidade vigente passaram por uma revisão e ganham nova amplitude no mundo moderno. Hoje chegamos num momento onde as conquistas se evidenciam ainda mais, e em que revemos em todos os discursos humanos as posturas assumidas até então: crescem os movimentos cívicos e sociais pelos direitos de todos, pela igualdade, pela liberdade.
A mola que se expandiu, porém, esmagou outra que, agora, começou seu primeiro rebote violento.
Hoje, dia 16 de novembro de 2012, João Mellão Neto publicou o seguinte texto:


Há vários pontos a se destacar, por isso vou por partes. Em primeiro lugar, uma afirmação dessas vindo deste distinto jornalista não soa nova a ninguém que o conhece. Apoiador de Jânio Quadros, ministro do trabalho de Fernando Collor de Melo, secretário de habitação de Paulo Maluf, deputado pelo PFL (atual Democratas), seu currículo é vasto em referências a seu lado conservador, que defende com veemência há anos.
Mas sua intenção no artigo não se restringe ao leitor conservador de sempre, mas a um libelo confessional na forma de um manifesto (dentro dos limites que uma coluna de jornal impõe). Isso fica bem claro na sua última linha:

Os principais países desenvolvidos têm, todos eles, partidos conservadores que disputam e vencem eleições. Por que será que só aqui, no Brasil, os conservadores relutam em se admitir como tal? Se o problema é a falta de alguém que puxe o cordão, tudo bem. Eu me declaro um conservador. E não tenho por que ter vergonha disso.

A ideia é de que o conservador, oprimido pelo pensamento de esquerda, se recolheu e não se expõe mais, não assume o que é de verdade. Como a mola do lado libertário se expandiu, a mola conservadora cedeu seu espaço.

Num outro texto, o mesmo Mellão Neto explica com muita clareza o que ele chama de conservador (o trecho é longo, mas vale a leitura):

O primeiro autor a retratar o conservadorismo foi o irlandês Edmund Burke, no final do século 18. Seu livro Reflexões sobre a Revolução na França e sobre o Comportamento de Certas Comunidades em Londres Relativo a esse Acontecimento foi uma resposta aos excessos cometidos pela Revolução Francesa. Segundo Burke, todas as reformas necessárias poderiam ter sido implantadas sem derramamento de sangue, ou a execução de seu rei.
E o que é o pensamento conservador? Em primeiro lugar, o conservador entende que os pensadores atuais são meros anões nos ombros de gigantes do passado. Eles acreditam enxergar mais longe, mas isso se dá unicamente em função da estatura de seus antecessores. No que tange a ideias, tudo o que existe já foi pensado ou implantado no passado. A única que medrou foi a da democracia liberal - conceito que foi mais bem desenvolvido por Karl Popper na sua obra Sociedade Aberta e os Seus Inimigos.
Os conservadores, por entenderem - como Platão - que a prudência é a maior da virtudes, levam muito a sério o que denominam "teste do tempo". A ideia subjacente disso é a de que o passar dos anos é o grande algoz das falsas ideias. Elas surgem, empolgam e algum tempo depois desaparecem ou caem em desuso. Se isso é válido até para as ciências, que dirá, então, da sociedade?
O conservador entende que, apesar do gigantesco avanço tecnológico dos tempos recentes, praticamente em nada se evoluiu em termos de moral ou de política. Apesar do conforto material ser muito maior, será que tivemos algum avanço em termos de felicidade? Provavelmente, não. O homem é até mais infeliz porque foi desentranhado de seu hábitat natural. E esse hábitat era harmonioso, uma vez que fora o resultado de séculos e séculos de arranjos sociais, todos eles decorrentes de tentativas e erros através da História.

A ideia geral do conservador para Mellão é que ele busca a felicidade baseado na tradição inaugurada pelos seus antecessores, e que essa felicidade reside numa moral que não está diretamente relacionada ao bem estar social almejado pelas revoluções. A revolução, aliás, é o que o conservador mais abomina : ele crê numa melhoria paulatina da sociedade, em busca de um bem comum (felicidade) intrinsecamente ligado à moralidade e à tradição, e não crê no poder reformador da luta. Em primeiro lugar, a harmonia para o conservador se posiciona num paraíso edênico (o tal habitat natural), que na construção de uma realidade nova pela distorção da antiga. O "retorno às origens", a sacralidade dá o verniz necessário de moralidade - absorvida do pensamento religioso, portanto - que o conservador precisa para se considerar como tal. E é imperioso, para o conservador, o poder do tempo sobre as ações, nunca do ponto de vista de um materialismo-histórico, mas sim de um ponto de vista platônico. O exemplo da Revolução Francesa volta no texto de hoje.
Outra delimitação importante do conservador para Mellão é da inflexibilidade moral:

Voltando às principais teses conservadoras, um conservador de verdade não tolera o relativismo moral. Ainda no século passado, terríveis consequências sofreram os povos onde ocorreu um colapso da ordem moral, onde os cidadãos transigiram quanto a isso. A moral há de ser uma só, seja ela fruto de revelação divina ou tenha sido forjada pela convenção humana. Ela é o resultado de um arranjo costumeiro, cuja origem data de tempos imemoriais. E é ela que nos preserva do abismo.


A ideia (por mim grifada) de que a moral é única e não-relativa é central no pensamento conservador, e é o que liga intimamente o conservador à tradição religiosa. A ideia de que a moralidade humana "data de tempos imemoriais" e "nos preserva do abismo" é de fácil legitimação religiosa.
A inflexibilidade moral permite ao conservador, por exemplo, advogar contra o desvio de comportamento. É o que faz com que os conservadores sejam contra os direitos de minorias e, portanto, se vejam no direito de criticar o espaço conquistado por aqueles que contrariam a moral. Mesmo que liberdade de expressão seja uma conquista intimamente relacionada com a queda de reis desde a Revolução Francesa, conservador algum se envergonha de advogar a favor dessa causa quando convém. Na verdade, é aí que a inflexibilidade moral se flexibiliza, no discurso.
Isso vem em grande parte do fato de que um conservador é, antes de tudo, um defensor dos direitos do indivíduo, não da sociedade em si. A partir do momento em que o indivíduo moraliza-se, a sociedade caminha junto. Aí que reside, por exemplo, a crítica do conservador jornalista da Veja que esta semana assombrou o país - como é esmero da agenda da Editora Abril - com seu texto dobre gays, cabras e espinafres. Ao invés de submeter meus parcos leitores ao mundo mágico de Guzzo, eu parto direto da definição de conservador, para a Lola:

É típico dos conservadores centrar-se apenas no indivíduo. Assim, não existe contexto, não existe condição social, não existe história, nada. Fracassos e sucessos podem ser creditados a indivíduos, naquela ideologia que todos estamos em condições iguais. Para Guzzo, não há comunidade ou movimento gay, pois o que temos são indivíduos. Se ele não acredita na existência do movimento gay, tampouco deve acreditar que o movimento feminista exista.

Na verdade, cara Lola, o movimento é algo errado pois contraria o conceito conservador de imobilidade. O conservador é aquele que não se mobiliza, que não entra em conflito. Ele acha a ideologização um erro, ele condena a revolução e não vê legitimidade na ação. O conservador, como o nome deixa claro, conserva valores morais ligados a uma tradição antiga e a tradição em si, como repositório da moral.


O problema é que quem advoga ser conservador nunca vai respeitar a tradição do outro. Na sua individualidade moralista, a moralidade é sempre a da SUA tradição. Ora, um islâmico ao chicotear a sua mulher porque ela foi violentada está sendo condizente com sua tradição e a de seus antepassados, não? Mas o conservador não vai ver esse lado, somente o seu lado. Como deixa claro o filósofo (pausa dramática) Olavo de Carvalho, "conservadorismo é a civilização judaico-cristã elevada à potência da grande economia capitalista consolidada em Estado de direito."
Quem advoga ser conservador, no Brasil, sempre é um cristão neo-liberal. Em geral, o conservador é intolerante contra o que é diferente, e isso está em Guzzo, em Olavo de Carvalho, Reinaldo Azevedo, João Mellão Netto e no Padre Marcelo Rossi. E esse é seu eixo moral, aquele que é inflexível. Na verdade, a contradição temporal do conservador incide nessa chave, ou seja, ele crê que o tempo é um senhor soberano para os outros, pois ele crê na atemporalidade de seus preceitos, ademais, naturais.


Acima de tudo, o conservador é um defensor da autoridade.
Eu repudio, veementemente, a autoridade ontológica (isso existe?), aquela autoridade assentada num direito natural, que abraça a autoridade divina e flerta com a monarquia. Ser conservador, num mundo como o nosso, não é apenas uma postura politica, para mim. É desvio de caráter.
Não há razão, por mais honesta que seja a atitude de gente como o Mellão, de se defender a imobilidade, a falta de ação e a ausência de revolução. Não há vida, da mais simples à mais complexa, sem revoluções - sejam estelares, amorosas, íntimas ou celulares. Cito aqui um texto recém descoberto por mim de Jaldes Menezes, professor da UFPB, comentando o livro Porque virei à direita, com depoimentos de iminentes neo-conservadores brasileiros:

No livro dos direitistas brasileiros, a veia polêmica do conservadorismo continua afiada e acompanhada do doutrinarismo histórico. Pessimistas, o ideal de homem do conservadorismo cinge-se a reiterar o passado. Contrários ao novo nos fronts da política e da cultura adoram contemplar a paisagem do grande hotel do abismo. Parafraseando o poeta Manuel Bandeira, não quero sabe de poesia que não seja libertação.

O papo vai longe, mas termino o texto com as palavras da jovem estudante - e bolsista do Prouni - fundadora do novo ARENA:

"Queremos implementar mudanças na sociedade de forma gradual, ordeira e com estabilidade. Propomos um jeito de fazer política com convicção, com propostas e focado na resolução dos problemas dos país. As pessoas querem solução e não discussão".

E assim evoluiremos - sem discussão, sem reflexão, nas mãos invisíveis de um rei imaginário.