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quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Rolezinhos: um diagnóstico de uma sociedade doente

Essa foto na verdade é do antigo Cinema Marabá, em São Paulo, mas serve como ilustração de como era o Cine Itapetininga

Eu não tive uma adolescência em shoppings. Eu morava em Itapetininga, cidade do interior de São Paulo, que na época não tinha um estabelecimento do tipo. Quando ia a algum shopping era com meus pais, em Sorocaba, pra fazer algumas compras, especialmente no Carrefour. Quando eu saí de Itapetininga, começaram a construir o shopping da cidade. Hoje o prefeito de lá é justamente o dono do shopping.
Só me lembro de uma coisa que esse shopping fez: o cinema antiquíssimo da cidade foi demolido e transformado em um estacionamento. O cinema dava pra um calçadão enorme, que desembocava numa praça. Demorei para querer assistir cinemas em shoppings justamente por isso, por revolta mesmo. Achava um absurdo demolir um cinema pra substituir por essas salas pequenas e padronizadas de shoppings. Eu juro pra vocês: o cinema de Itapetinga tinha uma sala em que cabiam umas 200 pessoas, bem espaçadas. Possuía um mezanino gigante em cima, e uma arquitetura que lembrava  uma versão mais modesta dos grandes teatros do início do século XX. Sua tela era o triplo dessas de cinema de shopping (eu conheci o IMAX bem antes de muita gente). Assisti lá desde os filmes dos Trapalhões mais clássicos até Rei Leão. Haviam sessões de cinema que eram pagas com passe escolar, pra estimular a molecada a ver filmes, e muitas vezes você podia ficar no cinema de uma sessão pra outra pra ver dois filmes em seguida. Ninguém sabe o que é isso hoje em dia.
Essa, se não me engano, foi a primeira vez na minha vida que eu senti certa consciência política contra algum tipo de símbolo capitalista, ou que eu reconheci no avanço do capital um perigo que podia minar as coisas que eu amo e que fazem parte da minha vida. Posso dizer que foi uma das primeiras vezes que eu me revoltei de verdade contra o sistema.
E sim, esse texto é sobre os rolezinhos.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Hoje a festa é sua, a festa é nossa, é de quem quiser, quem vier!

Hoje já é dia 6 de janeiro, e eu ainda nada escrevi pra marcar a passagem de ano.
Bem, eu estava viajando, como todo brasileiro que se preze. Mas, o que é verdade, é que eu não tinha ainda formado algo bom o suficiente para dizer sobre o reveillon. Apesar de eu ser alguém cético e meio desencantado, eu sempre prezei muito essa data. Diferente do Natal, que pra mim era sempre sinônimo de reflexão e não de papai noel, ceia e o escambau, o reveillon é sinônimo de festa. Minha família todos os anos se reúne na casa de um parente e organiza um churrascão. É o momento de todos se reunirem, quando eu revejo os meus parentes que não posso ver o ano todo. Diferente do que eu disse no post "Abaixo a Família", a minha família não tem nada de artificial. E eu realmente aproveito essas reuniões.
Mas, é claro, que reveillon para mim é muito mais que festa. Mas vamos começar como todo bom aluno de letras clássicas deve começar: etimologicamente.

A palavra "reveillon" vem da palavra réveil que significa, em francês, acordado, ou estar acordado. É claro que isso está relacionado com o fato de que todos ficam acordados até a meia-noite para esperar a virada, e além disso tb. Mas eu gosto de encarar as coisas num plano mais amplo.
A tradição de se manter acordado para fazer a contagem regressiva denota um investimento de esperança no que o novo ano trará. Espera-se sempre que o novo ano seja melhor que o anterior, e esse é o motivo de todos os votos e promessas feitas, sejam de caratér religioso, supersticioso ou simplesmente pessoal.
Mas, o olhar para frente deve sempre, na minha opinião, levar em conta um olhar para trás. Ao ficar acordado desde um ano a outro, deveríamos nós pensar não apenas em o que queremos para nós e para o mundo, mas o que fazemos para merecer esses desejos. E, muito além do chavão que implica esse pensamento, deveríamos nos lembrar do que constrói-se numa passagem de ano. O fechamento de um ciclo é um momento de rara importância para a maioria das pessoas, mas muitas vezes não lembraremos mais no futuro de qualquer coisa que parece ser de grande importância para nós agora.
O que foi 2009? Aliás, o que foi a década que se encerra?
Para a maioria das pessoas, que nutrem uma memória afetiva, emocional e racional imediatista e automática, será muito fácil dizer o que aconteceu de marcante em 2009. Mas você se lembra do que houve em 2008? 2007?
Na verdade, creio que daqui a cem, duzentos anos essa década será lembrada por apenas dois anos: 2001 e 2009. 2001 porque o paradigma das relações internacionais mudou drasticamente com a queda das torres gêmeas e o ataque ao Pentágono. Esse evento, além de uma tragédia e um crime, será lembrado como o momento em que o mundo percebeu pela primeira vez que entrava em uma nova era, que se iniciava nesse século XXI. É como a primeira guerra para o século XX: as características do mundo do novo século estão todas incluídas nesse evento. Temos uma amostra clara dos problemas relacionados à intolerância religiosa e ao anacronismo cultural que se impõe pela máquina do capitalismo - ao construir vales de diferenças entre países baseados na má distribuição de renda -, temos a concretização direta da globalização - pois só é possóvel conceber que terroristas do outro lado do mundo mandem sequestradores em aviões para dentro de centros urbanos norte-americanos em um mundo globalizado -, temos a questão das relações diplomáticas baseadas no capital que provém dos recursos energéticos - esse século com certeza será marcado pela questão dos recursos energéticos - e, por fim, temos o primeiro real vislumbre do poderio militar americano sendo ameaçado - a potência que perde o seu lugar, como outras que perderam e fecharam eras com seu desaparecimento.
2009 será lembrado por outro momento, mobilizador de massas, que o desprende também da sombra do século passado. A morte do seu maior ídolo vivo, Michael Jackson. Pode parecer pouco, mas pense que dos grandes nomes que moveram a cultura do século passado poucos vivem. Elvis morreu, dois dos Beatles também. Apenas ele, a sombra do gênio que foi, insistia em viver seu anacrônico conto de fadas, conto esse fruto direto do mundo que se construiu na modernidade. O século XX nos deu um mundo que preza a imagem, e alguns não sabem lidar com isso. Não há mais o conteúdo, não importa mais que o que se apresenta seja uma casca vazia, desde que essa seja bela. Michael foi a epítome dessa modernidade, em que a arte genuína é rara e o que sobra é o dispensável e consumível produto do capitalismo. A música que toca hoje, amanhã se esquece. E eu não tô falando sobre a mídia mainstream apenas, mas também sobre o suposto mundo indie, que lança um novo salvador do rock por dia, ou o mundo da música popular de acadêmico, que elege um novo grande astro a cada esquina da Vila Madalena. Não há mais lugar no nosso mundo para a arte, o que nos legou a modernidade foi uma apropriação da arte como produto transitório e fugaz. O mundo pós-moderno, por assim dizer, é o mundo que destrói para não por nada no lugar, que preza o conteúdo de valores vazios e abstratos - o dinheiro, a fama, a moda - e despreza aquilo que se liga ao passado, destruindo-o ao nivelá-lo ao status de outros produtos de consumo. E o Michael, na sua ingênua isensatez, encerrou e abriu essas duas eras. Sua vida e morte será lembrada como são as de Mozart, Beethoven e Wagner, sim, mas ao mesmo tempo pode ser marcante como o 11 de setembro, para definir a era que se incia como fruto e para além da pós-modernidade.
No ano que se encerra, na década que termina, vimos a transição mais clara possível do século XX para o XXI. Olhando para trás podemos olhar para frente com mais esperança? Não sei, mas com certeza toda reflexão é válida num mundo onde não faz parte da prática cotidiana dos cidadãos a reflexão racional sobre os fatos pelos quais passamos. Talvez assim possamos verdadeiramente nos ver "acordados" nessa virada de década.

Simplificando muito, poderíamos argumentar que os discursos pós-modernistas apelam principalmente para os vencedores dos processos de globalização e os discursos fundamentalistas para os perdedores.

Michael Hardt e Antonio Negri, Empire (2000), p. 150


Tente explicar Hitler a uma criança.

George Carlin (1937-2008), comediante


quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

A velha, a cama e o pinto

Vcs já ouviram A velha a fiar? Acho que não existe um ser que nunca tenha ouvido isso (só um trechinho):

E não é a única. Existe todo um gênero de músicas bizarras que vão num crescendo, acrescentando elementos, como a também clássica Véia debaixo da cama, aqui na interpretação magistral de Didi Mocó Sonrisal Colesterol Novalgina Mufungo:

Típicas músicas para animar viagens de ônibus, esses sons fazem parte da nossa cultura.
Tem até funk:

Mas a clássica, a maior de todas, a Velha a Fiar, é tão importante que possui um excelente vídeo, do cineasta Humberto Mauro de 1964!!! Ele é tido como um dos primeiros videoclipes do mundo 9apesar de ser mais um curta que um videoclipe.


Por essas e por outras que eu amo o Youtube!