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sábado, 2 de agosto de 2014

A fé que soterra a razão: é urgente intervir nas Neopetencostais para salvar o Brasil

Fonte: Site de Edir Macedo



No meu doutoramento, concluído há dois meses, dediquei-me ao estudo, dentre outros temas, de dois aspectos singulares da cultura humana: magia e religião. Meu estudo focava-se em uma obra literária específica da Antiguidade grega, mas dada a natureza do trabalho optei por enveredar-me pelos estudos acerca desses temas fora da minha área de atuação, as letras. Especificamente, dediquei-me a ler obras de antropólogos, como Marcel Mauss e Lévi-Strauss, sociólogos como Émile Durkeim e historiadores da religião como Mircea Eliade, além dos especialistas em religiões gregas, como Jean-Pierre Vernant e Walter Burkert. O estudo desse tema me fazia, por vezes, voltar meus olhos para além do universo do politeísmo grego, posto que vivemos em uma sociedade que, mesmo tendo conquistado um espaço grande para o pensamento laico, ainda é muito religiosa. É inegável que a religião ainda é o centro moral da sociedade humana. E, não por acaso, ainda dita as regras em parcelas da nossa sociedade que, supunha-se, já teriam se libertado dessa influência, especialmente a política. A separação dessas esferas é, em uma democracia representativa como a brasileira, algo fundamental para que não aconteça o que está na foto abaixo, da cerimônia de inauguração do chamado Templo de Salomão, uma obra (polêmica) da Igreja Universal do Reino de Deus.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Marcha para a Ignorância

Tem duas coisas que apareceram na religiosidade brasileira atual com grande força que me fazem nojo: a Renovação Carismática e o Neopentecostalismo.

http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2012/07/20-marcha-para-jesus-reune-multidao-em-sp.html
Milhares de pessoas se comportando como acham certo viver: como cordeiros. Mas não o do seu deus, como quer a sua bíblia, mas do seu pastor ou padre. E nele confiam cegamente, e por ele agem.
Dançam e cantam ao som dos produtos mais rentáveis da indústria fonográfica atual, os padrecos e pastores cantores, que levam a mensagem de atraso, carolice e preconceito para todo o país. Tanto que, diferente de antigamente, levam o mofo da sua "mensagem divina" para as grandes rádios, para a tevê e para os shows originariamente "laicos".
Eu afirmo todo o santo dia que estamos caindo em uma perigosa teocracia, guiada pela ignorância de fiéis, esperteza de lideranças religiosas e anuência passiva de nossos políticos. Pois, quer queira quer não, a Marcha pra Jesus, por exemplo, é mais um movimento político que religioso.
Em primeiro lugar, nada me convence que a tal Marcha para Jesus não tenha crescido a tal ponto no Brasil como contra-ataque à Parada Gay, principalmente quando analisamos os "líderes" desse movimento. Outra coisa é que, quando se vê pequisas como essa do Datafolha, percebe-se que excelente veículo é a Marcha para as intenções políticas desses criminosos travestidos de religiosos. É o voto de cabresto em sua versão teocrática.
Curioso, ainda, que no mesmo fim de semana que acontece essa Marcha, acontece a "polêmica" entrevista de Rosane Collor, ex-mulher do ex-presidente e atual senador, que é um dos principais inimigos da Rede Globo no atual Quid Pro Quo da CPI do Cachoeira. Uma retaliação óbvia, baixa e incontestável a todas as merdas que o antigo aliado está jogando no ventilador.


O que me enoja nesse mundo podre da religião, é que qualquer criminoso pode virar santo do dia pra noite só por gritar que aceitou Jesus. O Collor, por mais que esteja do outro lado dos ataques, sempre será o cara que roubou as poupanças, o cara que sofreu o impeachment. E ela posa de coitadinha.
E, não nos esqueçamos, do que é a "magia negra" a que ela se refere. É a mesma "magia negra", provavelmente, que faz com que haja crimes diversos contra as religiões de origem negra no Brasil. A mesma "magia negra" que faziam jogadores de RPG, praticantes de Yu-Gi-Oh... chama-se preconceito, é perigoso e pode matar.
Temos que parar de aceitar, parar de ser ingênuos. Parar de respeitar gente como Edir Macedo, que além dos crimes já amplamente conhecidos, expressou sua tendência eugenista hoje. Temos que parar de tolerar isso. Se uma sociedade quer ser crítica, quer avançar em suas reformas sociais e política, pessoas como os facínoras que comandam essas igrejas tinham que ser banidos da política. Eu não sou contra que as pessoas se manifestem religiosamente, mas ver os resultados de uma pesquisa como essa do Datafolha só deixa mais claro pra mim o quão danosa é a presença do movimento neopentecostal no Brasil. Religiões propagam preconceitos, atrasos, são a âncora da nossa sociedade. E precisamos parar de uma vez de compactuarmos com isso.
E, o dia que magia negra for algo pior que a pedofilia praticada pelos seus padres e o estelionato de seus pastores, eu me calo.




segunda-feira, 30 de abril de 2012

Ciência - Religião


Saiu uma pesquisa detalhada no Estadão sobre como Jovens brasileiros conciliam ciência e religião.

A pesquisa, como disse um amigo que compartilhou a matéria no facebook, mais me assusta que traz alento. É realmente assustador que 36% dos jovens brasileiros, um número deveras expressivo, não "concordem" com a ideia de que "as espécies atuais de animais e plantas se originaram de outras espécies do passado". Mas, quando pensamos no doutrinamento religioso da crescente corrente neopentecostal associado à péssima educação fundamental que possuímos no nosso país, fica fácil compreender o porque de tal porcentagem. A coisa fica mais complicada ainda quando lemos coisas como a seguinte:

"Para a filósofa e educadora Roseli Fischmann, os resultados da pesquisa são "compatíveis com a capacidade dos jovens de viver o mundo de descoberta da ciência sem abalar sua fé"."

Tenho um problema sério com a ideia de conciliar religião e ciência. De fato, muitos acham que uma coisa não exclui a outra, mesmo quando tratamos de assuntos como a Evolução, que numa reflexão lógica excluiria essencialmente a ideia promulgada, por exemplo, pela Bíblia, de que os homens já nasceram à imagem e semelhança de Deus e são diferentes dos animais. mas as pessoas parecem não compreender que o pensamento racional, em geral, é uma oposição ao pensamento religioso e dogmático. Não sei se a dificuldade em compreender a questão é mais influente que a filosofia promulgada por religiosos de todas as correntes, ou se justamente a influencia desses religiosos incide sobre a dificuldade de compreensão das pessoas de alguns conteúdos básicos. Por vezes penso que o processo evangelizatório impõe uma barreira mental à absorção e conteúdos que contrastem com os conteúdos religiosos em vários níveis, e ao delimitar o acesso do fiel à reflexão por intermédio do dogma, se estabelece uma estratégia de dominação interessante.

É só atentarmos para a ideia de que humanos não são animais, que está evidente na pesquisa e em vários comportamentos ideológicos que vemos por aí. Não faz o menor sentido, para um observador com o mínimo de bom senso, mas é o que supõe-se a partir da leitura que se faz da evolução mediante a visão enviesada dos leitores da bíblia. Parte-se do conceito de que o homem foi feito "à imagem e semelhança de Deus" e que ele é o senhor da Terra e dos animais para limitar a extensão do reino de Deus ao que é humano e aquilo de que o humano assenhora-se, e do que ele concebe em si. A medida de todas as coisa, porém, é o que transcende esse humano e legitima seu poder: a palavra. De tal forma, a legitimidade do reino de Deus passa pela legitimidade da palavra que, como verdade, é intransponível por qualquer ciência que seja. Intransponível no sentido de que não se pode cruzar ambas, de fato, em qualquer viés de análise que considere necessária a ideia da irmanação entre homens e animais, pressuposta a origem comum de ambas. E intransponível porque não pode ser deposta em prol de nenhum discurso que se veja mais coerente pois a palavra se sustenta na própria existência para se justificar - ela é o mistério indecifrável ao mesmo tempo que é a verdade absoluta, um paradoxo convenientemente insolúvel.

É deveras complexo, no entanto, na era da ciência, a imposição cega do dogma que não leve em conta o mínimo de noção da história científica e seus avanços. A inserção artificial da esfera científica na religiosa (e falo de inserção porque é hipocrisia ver as esferas como partes de um todo, sendo a religião a única verdade para o fiel) pretende-se mais, a meu ver, uma defesa da religião frente ao racionalismo que uma aceitação de qualquer teoria científica. Dizem que aceitam o que a ciência tem a oferecer mediante as mudanças sociais implementadas pela mesma, mas não a custo de seus dogmas e tradições. O que não percebem os religiosos é que a imutabilidade não é coerente com o questionamento, o que opõe diametralmente ciência e religião.




Assim, da mesma forma, como a autoafirmação é parte intrínseca do processo evangelizatório, afirmar que há qualquer tipo de convergência entre teses científicas e dogmas religiosos tira força da ciência, mas não da religião. É interessante para a própria religião que ela se coloque como acolhedora (é a sua função, inclusive, a nível psicológico), portanto, acolher para si o discurso científico passa a falsa ilusão de plenitude do discurso religioso, que abarca todos os outros. Assim, ao mesmo tempo, menospreza qualquer possível atrito pela autoafirmação de seus dogmas sobre os discursos que contém, submetendo-os (e seus métodos) às suas próprias idiossincrasias - haja vista qualquer debate alçado ao nível político, que envolva o questionamento de dogmas religiosos: sempre o discurso religioso se coloca como anterior e superior ao secular.

Isso é apenas uma curta reflexão; o debate é muito mais longo e produtivo que o que está exposto aqui. Mas nenhuma discussão séria sobre isso, a meu ver, podemos observar de cima do muro. Nesse caso ainda mais pois para mim não há caminho no meio entre as duas visões de mundo: ciência é o contrário de religião. Devemos deixar de lado a ingenuidade e assumir nossos discursos, pois passou da hora de assumirmos que, mediante seus mais rígidos aspectos nocionais, ciência e religião são sempre excludentes e, porque não, reciprocamente substituíveis mediante a postura que se assume diante do mundo.

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PS: as imagens são retiradas de um blog que tem a visão oposta a minha, e acho que vale a visita, para expandir a discussão: http://www.criacionismo.com.br/

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

2012 chegou, e agora?


Essa semana teremos um novo Puxacast! o Podcast do Puxa Cachorra!, blog do mestre Vinício dos Santos no qual eu dou uns pitacos e publico esporadicamente.

Esse Puxacast será um bate-papo bem humorado sobre o alardeado fim do mundo, que está marcado pra 2012, segundo diversos esotéricos e outros desocupados.

O Puxa Cachorra! é um blog de humor - apesar de muitos não entenderem isso -, por isso a gente fez várias piadas com o tema.

Mas eu precisava falar disso de um outro ponto de vista, mais sério.

Porque, apesar de brincarmos com o tema, muita gente REALMENTE acredita que algo sério acontecerá em 2012.

E sabemos bem o que pode acontecer quando o ser humano leva a sério essas coisas.

Lembro-me muito bem do caso célebre da passagem do cometa Hale-Bopp, em 1997.

Uma seita chamada Heaven's Gate acreditava que o Hale-Bopp iria levá-los para fora da Terra, que iria sofrer um processo de "reciclagem" pois era dominado por "Luciferianos".

Segundo eles, o Hale-Bop carregava uma nave que levava Jesus Cristo.

E a única maneira de seguir com o Hale-Bopp era o suicídio.

39 pessoas comandadas por Marshall Applewhite se suicidaram quando o cometa passou.

Porém, por anos, Marshall e seus seguidores alertaram que iriam "deixar a Terra".

Não digo que seria possível evitar o suicídio, mas o alerta existia.

Pode parecer alarmismo, mas enxergo a chegada de 2012 como a passagem do Hale-Bopp.

O perigo está aí, de que malucos atentem contra suas vidas e, mais seriamente, contra a vida de outros, motivados pela semente plantada pela Nova Era.

A Nova Era é, na minha opinião, um dos maiores problemas da sociedade atual.

Toda a Nova Era é baseada em concepções furadas, pseudociência, esoterismo barato (como se houvesse esoterismo sério) e muita, mas muita distorção da realidade.

A cultura Nova Era presta um desserviço imenso à sociedade, levando milhões de pessoas a acreditarem em suas bizarrices em prol da venda de mentiras, como terapia de cristais, terapia energética, etc, etc.


É filha do capitalismo com a pior parcela do movimento hippie, a parte alienada dele.

São conservadores, alienados e conformistas.

E lucram com isso.

É só ver como ainda vendem livros como "O Segredo" e "Quem somos nós?", baluartes do atraso do pensamento comum em relação ao pensamento científico.

E nessa, a Nova Era "inventou" que o fim do calendário Maia é um sinônimo de fim dos tempos.

E com isso gerou uma febre em torno do tema tão grande, que consigo perscrutar as abominações que podem ser geradas desse fenômeno.

Não, não sou contra você acreditar em Nova Era.

Se você quer ser enganado, o problema é seu.

Mas Applewhite, do Heaven's Gate, é filho da Nova Era também.

E, se as pessoas acreditam na toalhinha mágica do Waldomiro Santiago, porque não acreditarão em outro maluco que quiser "guiá-los" com a chegada do fim do mundo?

Tem opções diversas para os malucos.



Já ouviu falar de Nibiru, o planeta que se chocará com a Terra em 2012?

E se ele não se chocar?

E se um louco decidir fazer a justiça divina ele mesmo?

E se ele comprar armamentos e quiser entrar numa escola e levar crianças pra Jesus?

Acho que as pessoas, principalmente os governos em autoridades, dão muito pouco importância para o "fenômeno de 2012".

Não custa nada nos prepararmos, não para o fim do mundo, mas para a maluquice do próprio ser humano, que pode ter consequências terríveis.

Uma jovem indiana se suicidou quando o Colisor de Hádrons foi ligado, só porque ele criava "pequenos buracos negros".

E mais gente pensa, ainda, que o LHC destruirá a Terra.

Por essa e por outras, os vendedores de teorias e soluções da Nova Era deveriam ir pra cadeia, como os pastores neopentecostais.

Deveriam ser culpabilizados por essa loucura que é o fenômeno do fim do mundo em 2012.

Podem aguardar: muita merda ainda pode acontecer por causa disso.

E infelizmente, diferente do Puxa Cachorra!, isso não tem graça nenhuma.

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Pra quem não conhece, tem tudo do Marshall Applewhite no Youtube. Uma amostra do louco (em inglês):


E um PS: O Ratinho, que é um cara religioso - diferente de mim - e com o qual eu quase nunca concordo, disse bem claramente o que eu penso sobre esse Waldomiro.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O sacerdote e o Big Brother


Primeiro, leiamos o que diz a palavra do Senhor:

" 25. Levantando-se um doutor da lei, experimentou-o, dizendo: Mestre, que farei para herdar a vida eterna? 26. Respondeu-lhe Jesus: Que é o que está escrito na Lei? como lês tu? 27. Respondeu ele: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de toda a tua força e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo. 28. Replicou-lhe Jesus: Respondeste bem; faze isso, e viverás. 29. Ele, porém, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: E quem é o meu próximo? 30. Prosseguindo Jesus, disse: Um homem descia de Jerusalém a Jericó, e caiu nas mãos de salteadores que, depois de o despirem e espancarem, se retiraram, deixando-o meio morto. 31. Por uma coincidência descia por aquele caminho um sacerdote; quando o viu, passou de largo. 32. Do mesmo modo também um levita, chegando ao lugar e vendo-o, passou de largo. 33. Um samaritano, porém, que ia de viagem, aproximou-se do homem e, vendo-o, teve compaixão dele. 34. Chegando-se, atou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho e, pondo-o sobre o seu animal, levou-o para uma hospedaria e tratou-o. 35. No dia seguinte tirou dois denários, deu-os ao hospedeiro e disse: Trata-o e quanto gastares de mais, na volta eu to pagarei. 36. Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores? 37. Respondeu o doutor da lei: Aquele que usou de misericórdia para com ele. Disse-lhe Jesus: Vai-te, e faze tu o mesmo. "

– S:Tradução Brasileira da Bíblia/Lucas/XI

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O doutor da lei busca saber de quem é o reino dos céus, quem terá direito a vida eterna.

Jesus, o Cristo, acolheu ladrões, prostitutas e outros considerados excluídos.

Não apenas excluídos. Criminosos.

Pessoas que fogem ao comportamento dito "normal".

Quem terá direito a vida eterna?

O homem que salvou aquele que estava à beira da morte não se importou em ver quem este era.

Não importou a cor, a nacionalidade, a origem.

Importou fazer o bem.

Acolher o outro, independente de quem é esse outro: esse é um dos cernes da cristandade.

Quando alguém propõe "mudar" o outro, o está acolhendo?

Cristo não mudou os ladrões, as prostitutas, os bandidos.

Ele apenas olhou para eles, quando ninguém mais olhava.


Os acolheu e lhes deu uma filosofia nova de vida, que os incluía.

O reino dos céus era deles, dos desfavorecidos, não dos endinheirados sacerdotes do templo.

Se eles mudaram de vida baseados no discurso dele, foi porque antes ele os aceitou como eles eram.

Mas nunca foi a intenção de Jesus mudá-los.

Um verdadeiro cristão é aquele que acolhe, sem julgar.

Se o acolhido assim deseja mudar, ele muda.

Se não, ele ainda assim terá espaço na casa de Deus.

Não será excluído porque seu comportamento é moralmente equivocado.

Aliás, a moral é segundo plano pra Jesus.

Não se julga a moral de quem vive numa vida marginal.

De minorias, de excluídos.

Você simplesmente acolhe, essa é a profissão de fé.

Jesus não evangelizou ninguém.

Ele curou, ele profetizou e discursou.

Quem o seguiu, seguiu porque quis.

O que a parábola nos ensina, a longo prazo?

Que o preconceito é sempre preconceito, e quem tem preconceito sempre está errado.

Jesus Cristo foi um dos maiores combatentes contra o preconceito.

O preconceito era substituído pelo amor, amor esse incondicional.

O verdadeiro cristão é aquele que ama o próximo, que dá a cara a tapa.


Não é, me desculpem, o discurso de Silas Malafaia.

Muito menos da bancada parlamentar Evangélica da nossa Câmara dos Deputados e Senado.

Apoiando-se num conceito engessado de família, que nada diz de claro e objetivo sobre a nossa sociedade, eles defendem a moral e pregam uma certa "liberdade de expressão" que os garanta o direito de criticar o comportamento dos homossexuais.

Bem, se você está no púlpito de sua seita, você fala o que bem quer pra quem quer ouvir.

Se o púlpito de sua seita se localiza na tevê que todos assistem, você NÃO tem esse direito.

Tevê, gente, é uma concessão pública.

Ninguém tem o direito de falar o que bem entende na tevê!

E isso não tem nada a ver com liberdade de expressão.


É o que defende o deputado federal Jean Wyllys, ao atacar as mudanças do atual texto da PLC 122, a famigerada "lei da homofobia".

Sim, ele mesmo, aquele do BBB.

Ele é deputado federal pelo PSOL do Rio de Janeiro.

É um homem esclarecido, sério, articulado e muito didático na sua explicação.

Não apela pra gritaria, pra fé, pra nada do tipo.

Ele explica. É professor, essa é sua profissão.

Poderia passar por apenas mais uma "celebridade" da câmara.

Que entrou pelo voto popular, que o brasileiro da classe média e da elite insiste em criticar.

Mas o Tirica faz mais na câmara que o Maluf.

O Romário e o Popó também.

Isso não diz que eles devem ser idolatrados, nem que o tal voto "de protesto" seja algo bom.

Só me faz pensar o que tem na cabeça uma pessoa que critica sua empregada que vota no campeão do BBB e vai lá e vota no Jader Barbalho.

Mas voltando...

A Assembleia de Deus, bem como quase todas as igrejas, tem algum representante na chamada bancada cristã na Câmara e no Senado.

Quem os elegeu o fez por estar submetido a um sistema muito simples, mas sujo, de coerção.

É um ato de fé.

Meu pastor não me representa: ele representa Deus.

Assim, se põe na câmara alguém que defende os interesses de uma ala extremamente conservadora da sociedade baseada no poder da palavra de Deus, e não nas suas ações.

Não imposta sua índole, suas propostas.

Votar se resume a um ato de fé.

Conheço evangélicos gays, católicos gays.

Que, aliás, não abandonaram a sua fé.

Mas eles são representados por gente como Magno Malta?

Que faz do Senado um culto religioso?

Que tem a pachorra de defender em rede nacional de televisão que a pedofilia DERIVA do comportamento homossexual?

Claro. Todo homossexual é libertino.

Libertinagem (ai Sodoma!) é sinônimo de viadagem.

Pois bem.

Seu Jesus Cristo acolheria os homossexuais.

Seu Jesus Cristo os levaria pra casa, os daria de comer.

Seu Jesus Cristo defenderia eles contra as injustiças.

Seu Jesus Cristo os amaria incondicionalmente, sem cobrar que o seguissem.

Todos os cristãos homofóbicos não são cristãos.

Não merecem esse nome, nem o Reino de Deus.

Todas as igrejas que propagam a homofobia como "liberdade de expressão" são promulgadoras do ódio.

O Cristão de verdade propaga o amor.

É o que a parábola do bom samaritano nos fala.

Não me impressiona que um dos textos mais famosos da Bíblia, um texto tão antigo, seja assim ignorado pelos pregadores da palavra.

A palavra de Cristo é mais moderna e atual que o comportamento de Silas, de Ratzinger, e da maioria dos religiosos.

Se os cristãos fossem mais parecidos com Cristo que com os seus pregadores, viveríamos numa sociedade bem melhor.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Jesus e o cachorrinho


E o facebook, que já era o palco substituto do sensacionalismo à lá Cidade Alerta, virou a farra do boi!

De um lado aqueles que desejam a cabeça da enfermeira que agrediu um Yorkshire até a morte deste.

Do outro, pessoas que se dizem indignadas com as pessoas que se preocupam mais com os direitos dos animais que com direitos humanos.

Pra mim, é doente quem acha que não há nada demais em se maltratar um animal até a morte, bem como quem acha que isso não é motivo de indignação.

Mas não se exclui o fato de que há uma desmesurada comoção com os eventos de violência contra os animais em relação proporcional com a comoção para com a violência cotidiana contra outros seres.

Porém, diferente da opinião encontrada neste texto não considero essa uma falácia argumentativa, pois a atenção atrela-se a postura tipicamente atual de uma sociedade onde, como li num outro texto ótimo que postei hoje no meu facebook, "a quebra dos laços sociais alçou os animais de estimação à categoria de senhores absolutos".

Vivemos em uma sociedade de pessoas isolacionistas, que se protegem com o escudo da internet para despejar tanto seus preconceitos, quanto o politicamente correto.

É excelente poder estar em uma sociedade onde as pessoas podem dar sua opinião abertamente.

Nós vivemos numa época onde qualquer pessoa pode ler uma receita de um bolo feito na República Tcheca ou um livro do Durkeim sem sair de sua poltrona.

Mas, da mesma forma, a consequência da liberdade de expressão é uma autorregulação social natural derivada da possibilidade de TODOS poderem opinar.

Quando as pessoas dão a cara a tapa na internet, elas agem em prol do que acreditam sem medos, pois não são pessoas físicas e situações físicas.

Muitos que hoje se expressam abertamente sobre o que pensam do mundo antigamente não o fariam em seus grupos sociais com medo de represálias.

Agora seus grupos sociais são virtuais.

Eles são mediados com apenas um clique num botão que exclui aquela pessoa de seu círculo, ou deleta o comentário que vc não quer ver.

Logo, perdeu-se o medo de opinar, pois a réplica é mediável!

E, assim, confunde-se inconsequência com opinião.

Outra maravilha criada no âmbito do facebook é o botão de compartilhamento.

Ele permitiu que tudo chegue a todos imediatamente.

Assim, se vc nutre o mais vil gosto, vc não mais se esconde: vc sabe que há alguém dentre as bilhões de pessoas que compartilham esse gosto.

Compartilha-se preconceitos, censuras, campanhas e mobilizações.

Mas poucos compartilham reflexão, ideias ou ainda levam essas discussões pra outro âmbito.

Tenho acompanhado algo interessante que demonstra claramente a falta de noção das pessoas sobre o que é o politicamente correto.

É um exemplo que podemos usar para refletir, também, sobre o caso do pobre cachorrinho.

Há uma página no facebook chamada "Jesus Bêbado".

Ela propaga brincadeiras e críticas severas e, porque não, ofensivas à religião, especialmente a cristã.

Da mesma forma que outras páginas, como a "Eu ODEIO o Corinthians (GAMBÁZADA)" que propaga brincadeiras, muitas extremamente ofensivas, com corinthianos.

E é só procurar que vocês acharão mais coisas do tipo.

Mas, eis que um grupo de cristãos quer banir a página do "Jesus Bêbado".

O argumento do grupo é "Ela é, totalmente, abominável, e sarcástica com todos os que acreditam em Deus!"

Podem falar que eu estou exagerando mas, em pleno século XXI, "Jesus Bêbado" está sendo acusada, vejam vcs, de heresia!

Porque nenhum corinthiano vai mandar fechar a página "Eu ODEIO o Corinthians (GAMBÁZADA)" porque se sente ofendido.

Provavelmente ele vai abrir uma ofendendo quem ofende o corinthians.

O que temos aqui, e no caso da enfermeira, é a desvirtuação da ideia de politicamente correto em prol de uma necessidade de expressar a todo custo que vc se importa, seja lá qual for a opinião.

Vivemos a ditadura do indignado.

Sua opinião é válida, mas desde que encarada dogmaticamente, ela é imposição.

Não tem como dizer que maltratar um animal é defensável.

Isso não é uma opinião.

Isso posto, penso que a reflexão deve dar-se no meio termo entre duas leituras: por um lado, um crime é um crime e merece punição; por outro lado, há mais coisas para se pensar e refletir que a mera reprodução de um discurso massificante sobre a punição.

A generalização é imbecilizante, e o argumento sempre perde força.

Mas é importantíssimo nos atermos a duas consequências dessa propagação da indignação internética, uma boa, outra ruim.

(1) A divulgação de retratos de criminosos, bem como de campanhas de mobilização são maneiras de tornar esse Facebook finalmente mais do que um simulacro das relações sociais.

Da mesma maneira, a simples existência de uma possibilidade de engajar-se num debate, ter acesso a diversas opiniões e poder refletir a respeito disso é um fruto muito bem vindo das redes sociais.

Qualquer possibilidade de exercer seu senso crítico, de debater e de conhecer mais é bem vinda.

Se o Facebook, filtrando as bobagens, pode permitir que nossos debates de salas de aula, reuniões de amigos, bares e etc. saiam desse espectro e atinjam mais pessoas e permitam a reflexão, ele já vale a existência.

(2) A tendência à falácia é constante e quase inescapável, bem como a falta de noção das pessoas de que um espaço público de divulgação de ideias precisa de bom senso, senão vira apenas um palanque de oradores vazios, pros dois lados.

Não entendo, por exemplo, como pessoas podem reclamar de uma enfermeira que massacra um yorkshire e continuar indo em rodeios.

O problema da maioria das pessoas é a falta de argumentos, ou da noção argumentativa.

Se vc defende a vida, como eu defendo, divulgue a cara dos criminosos para que eles sejam presos.

Agora, divulgar corpos de animais estraçalhados, cenas de morte e violência em nada ajuda quem foi vítima.

Bem como reclamar a esmo pra que as pessoas vejam que vc é uma pessoa indignada só demonstra que a moda de "xingar muito no twitter" mudou apenas de rede social.

E todo mundo tirava sarro da fãzinha do Restart...

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

"Como diz a Bíblia" - Documentário.

O Documentário "Como diz a Bíblia" é uma reflexão sobre religiosidade e tolerância. Não terminei ainda de assisti-lo, mas só a primeira parte já me chamou a atenção.


Ele trata sobre a relação entre as religiões e a homossexualidade. É um documentário premiado e importantíssima reflexão acerca da intolerância.



O discurso contra a homossexualidade se propaga com força, e os palanques e altares religiosos têm sido os principais veículos desse discurso.



Boa parte da discussão é baseada na própria Bíblia, pois ela é a fonte primeira das alegações dos defensores da homofobia. Mas o que a Bíblia diz sobre homossexualidade?





Assistam, vale a pena.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

A Frente de Direita - Parte 1: Direitopatia e Homossexualidade

Antes de tudo, um aviso importante: esse texto é diferente dos demais desse blog. Ele será longo, pela necessidade de explanar o assunto de maneira mais clara possível, e pela miríade de eventos e situações que nos conduzem às conclusões aventadas. A idéia, aqui, é expor todas as vertentes da idéia de Direitopatia, pois esse texto, antes de tudo, é um alerta. Um alerta contra uma concepção de mundo anacrônica, perigosa e em crescente expansão. Podem encarar isso como um manifesto, uma reflexão ou apenas um desabafo, mas o tom que eu busco é, o máximo possível, de um ensaio crítico.
Tentei evitar a postura mais abertamente sarcástica e mau humorada dos meus outros textos do blog, pois acho que não combina com a discussão de um assunto no nível que quero empregá-lo. A tese que lanço aqui não é nova, mas tento dar a minha visão - e, espero, contribuição - sobre o fenômeno do crescimento da direita no nosso país e no mundo. Para tanto, dividi o texto em partes. A primeira traz a introdução à minha concepção de Direitopatia (que como termo, aliás, já é popular na internet bem antes de mim) e a explicação desta mediante o exemplo da homofobia. A segunda, que espero colocar aqui em breve, trará a minha análise do fenômeno da fé aliada a repressão e ao modelo capitalista neoliberal. Advirto, porém, que não sou sou sociólogo, tampouco teórico político ou membro de qualquer entidade social; sou antes de tudo uma pessoa assustada com os rumos da sociedade atual.

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Esquerdopatia: termo cunhado, até onde sei, pelo colunista da Revista Veja Reinaldo Azevedo, para definir um comportamento social, para ele uma "patia", que rege as ações de alinhados a uma esquerda cega e burra. Basicamente, é como se se interpretasse Marx à risca, se fechasse os olhos para os crimes cometidos por Mao, Stálin e outros em prol da bandeira do comunismo. O colunista já deixou por vezes claro que não apenas é contra a esquerda, mas que considera-a nefasta o suficiente para ser encarada como uma doença, que cresce epidemicamente entre algumas parcelas da população desde que Lula se tornou presidente. Um dos sinais claros desce crescimento seria o surgimento na internet de grupos de blogueiros, dentre eles alguns jornalistas famosos como Paulo Henrique Amorim, Luís Nassif e Luiz Carlos Azenha, que se intitulam blogueiros "progressistas", defensores de uma idéia chamada PIG. O PIG é uma sigla para "Partido da Imprensa Golpista", um conglomerado de forças de imprensa - formado por Globo, Abril e sua revista Veja, os Saad da Band, Folha de SP, etc. - cujo objetivo seria minar oposições contrárias à custo do exercício do seu poder de mídia de massa, pelo qual minariam seus inimigos.

Acho que uma idéia criada por um opositor da esquerda nunca foi tão adequada para definir a direita.

Destaquei, em negrito, trechos que unidos podem nos fazer entender a postura histórica da direita, e que podem configurar uma Direitopatia.

- Apenas estou usando a lógica da semiótica: para existir uma cadeira, deve existir uma não-cadeira que define a cadeira como tal.

Direitopatia: define um comportamento social, uma "patia", que rege as ações de alinhados a uma direita cega e burra. Basicamente, é como se se interpretasse a Bíblia à risca, se fechasse os olhos para os crimes cometidos por Vaticano, EUA e outros em prol da bandeira do capitalismo.

Podemos encarar a nossa sociedade atual sob o olhar da direitopatia? Não apenas podemos, mas devemos ficar alertas ao crescimento de um comportamento hostil, arraigado em preceitos antiquíssimos, mas que se renovam através da popularização da idéia mais banal do mundo: a liberdade de expressão.

É um paradoxo interessante, que pode ser explicado por um exemplo simples: Sempre que se defendeu os direitos dos homossexuais, por exemplo, houve repressão baseada em uma concepção ético-religiosa: da antinaturalidade. Considerando a natureza biológica do binômio homem+mulher como necessário à vida, os detratores dos direitos dos homossexuais se posicionaram sempre contrários à concepção de que dois homens ou duas mulheres pudessem formar um casal. Oras, se o amor une homem e mulher para gerar um filho, não existe amor em uma relação que não gera frutos. Essa é a bandeira anti-homossexual desde sempre, mas como toda bandeira ela se fixa em um terreno não muito firme: o do preconceito. Assumir que, pela antinaturalidade, um homossexual é um comportamento errado, é assumir que a existência desse é também biologicamente errada, o que pode o conduzir a considerá-lo um ser que não merece fazer parte de uma sociedade natural. Isso leva à violência, inevitavelmente.
Mas, quando a sociedade começa aos poucos a inserir em seu regime capitalista básico noções pontuais do socialismo, as coisas começam a mudar. Eu nem preciso explicar como isso funciona, deixo Antônio Cândido falar:

O senhor é socialista?

Ah, claro, inteiramente. Aliás, eu acho que o socialismo é uma doutrina totalmente triunfante no mundo. E não é paradoxo. O que é o socialismo? É o irmão-gêmeo do capitalismo, nasceram juntos, na revolução industrial. É indescritível o que era a indústria no começo. Os operários ingleses dormiam debaixo da máquina e eram acordados de madrugada com o chicote do contramestre. Isso era a indústria. Aí começou a aparecer o socialismo. Chamo de socialismo todas as tendências que dizem que o homem tem que caminhar para a igualdade e ele é o criador de riquezas e não pode ser explorado. Comunismo, socialismo democrático, anarquismo, solidarismo, cristianismo social, cooperativismo... tudo isso. Esse pessoal começou a lutar, para o operário não ser mais chicoteado, depois para não trabalhar mais que doze horas, depois para não trabalhar mais que dez, oito; para a mulher grávida não ter que trabalhar, para os trabalhadores terem férias, para ter escola para as crianças. Coisas que hoje são banais. Conversando com um antigo aluno meu, que é um rapaz rico, industrial, ele disse: “o senhor não pode negar que o capitalismo tem uma face humana”. O capitalismo não tem face humana nenhuma. O capitalismo é baseado na mais-valia e no exército de reserva, como Marx definiu. É preciso ter sempre miseráveis para tirar o excesso que o capital precisar. E a mais-valia não tem limite. Marx diz na “Ideologia Alemã”: as necessidades humanas são cumulativas e irreversíveis. Quando você anda descalço, você anda descalço. Quando você descobre a sandália, não quer mais andar descalço. Quando descobre o sapato, não quer mais a sandália. Quando descobre a meia, quer sapato com meia e por aí não tem mais fim. E o capitalismo está baseado nisso. O que se pensa que é face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele com suor, lágrimas e sangue. Hoje é normal o operário trabalhar oito horas, ter férias... tudo é conquista do socialismo. O socialismo só não deu certo na Rússia.

Por quê?

Virou capitalismo. A revolução russa serviu para formar o capitalismo. O socialismo deu certo onde não foi ao poder. O socialismo hoje está infiltrado em todo lugar.

Socialismo, para Cândido, é mais que um regime de oposição ao capitalismo: é uma característica intrínseca a uma sociedade que cresceu às voltas com uma revolução industrial, com uma mudança de paradigmas opressora. O socialismo, definido magistralmente como "todas as tendências que dizem que o homem tem que caminhar para a igualdade e ele é o criador de riquezas e não pode ser explorado" não é hipótese, é fato. Faz parte da consciência humana, que considera um trabalhador senhor de si por ser humano, e como tal, digno de gozar de sua vida em detrimento do regime de trabalho opressor do patrão.

- E o que isso tem a ver com homossexualismo?

Quando o socialismo prevê que nós devemos nos adequar á igualdade, e encrusta no capitalismo essa noção, começa a surgir a concepção de que homossexuais são iguais, pois são humanos. A reação natural contra posturas anti-homossexualismo (que eu não vou chamar de homofobia ainda, pois nesse estágio inicial nada mais é do que uma reação de defesa da sociedade) é o surgimento do movimento baseado justamente no direito adquirido. A moeda de troca da sociedade, porém, só veio anos mais tarde, quando homossexuais ganharam espaço dentro do capitalismo. Na verdade, quando eles se tornaram mercado consumidor. Podemos facilmente situar isso nos anos 2000, e um reflexo natural para qualquer um entender são, por exemplo, a proliferação de gays nas novelas da rede Globo. Podemos sim pensar numa sociedade mais justa e inclusiva, mas antes disso, temos uma sociedade que descobriu um filão econômico forte mediante uma crise iminente e destruidora. O capitalismo se aproveitou disso, e inseriu o gay na sociedade. Ele, agora, é natural, pois seu amor interessa ao capitalismo, não porque a sociedade como um todo tornou-se mais compreensiva.
E como ficam os defensores do anti-homossexualismo? Num primeiro momento, acuados, fechados em seus próprios argumentos. Com a perda de poder dessa bandeira, eles precisavam arranjar outra, que se adequasse ao modelo do capitalismo atual - que a partir de agora vou chamar de sociocapitalismo, justamente pelo paradoxo imbricado nesse postulado. A bandeira achada é justamente a bandeira da esquerda liberal: a liberdade de expressão.
É crime contra a liberdade de expressão discriminar um discriminador. Logo, a título de defender os preceitos da antinaturalidade do homossexualismo - e reafirmar os preceitos da parcela da população que mais sofre com as diretrizes de governos sociocapitalistas, que é a classe média cristã - inventou-se a idéia de que defender-se do homossexualismo é defender a sua liberdade de expressão, que nada mais é que uma nova maneira de enxergar a mesma antiga defesa à família natural. E mais: reverte-se o paradigma da impossibilidade da existência do antinatural levar à violência. Agora violência é não permitir que o homem tenha direito a impedir a penetração do conceito homossexual no microcosmo de sua comunidade. É violência contra a sua liberdade.
É bom atentar que, levando em conta essa colocação, ações como a do deputado Jair Bolsonaro ainda são meramente circenses. Jair Bolsonaro não é detentor de um discurso antinaturalista atual, adequado ao sociocapitalismo. Ele é da escola do recalque original, que investe como um leão contra qualquer ação que perscrute ao mínimo a esquerda. Ele é da mais próximo da posição de Júlio Severo, que de Reinaldo Azevedo. Apesar de nutrir ambos - e é aí que mora o perigo.
Posicionamentos como 0 de Bolsonaro não são diretamente responsáveis por atos de violência e repressão, mas nutrem os argumentos direitopatas. É como se uma pequena semente fosse plantada, e que germinasse lentamente, enquanto os jardineiros se preocupam em podar as arvores velhas e já corroídas pelo tempo. Bolsonaro é quem é desde muito tempo atrás, mas só o descobriram agora.
A Direitopatia surge quando esse discurso começa a fazer sentido.

- Oras, eu não sou homofóbico, mas não quero que meu filho seja gay. Se o kit anti-homofobia fizer meu filho se tornar gay, eu fico do lado do Bolsonaro. Mas não totalmente.

É o Vanderley da sauna gay, um dos últimos personagens bons do Casseta & Planeta. Ele frequenta a sauna, mas não é gay. O pai de família da classe média é contra o kit anti-homofobia, mas não é homofóbico, pois não quer ser comparado ao Bolsonaro. Ademais da comicidade da comparação, é dessa sementinha que surge isso:


Quem lançou esse projeto?


Carlos Apolinário, que se diz o "Vereador das Mãos Limpas", mas logo abaixo desse logo, em letras miúdas, deixa visível o lema "Fé e Trabalho". O que evidencia a segunda diretriz do comportamento direitopata: a defesa da Fé.

Aguardem a parte 2: Games, Heavy Metal, Noruega e o poder da Fé. Abraços.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Palavra da Salvação

Olá.

Antes que você comece a ler, eu advirto: ESSE É UM TEXTO DE HUMOR.
Se você não rir, ou é porque eu sou sem graça mesmo ou é porque você se ofende com piadas blasfêmicas.
Como eu não acredito na existência de divindade alguma, blasfêmia pra mim não existe.
Logo se você se ofende fácil, não leia esse texto.
GRATO.

O Autor.

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Irmãos e irmãs.

Vamos falar da Bíblia...

Muita pessoas falam da Bíblia sem ter lido a dita cuja. Em geral, quando lêem, lêem apenas os evangelhos, os salmos e as leituras da missa.

Eu li a Bíblia há tempos, quase todinha... me faltaram alguns profetas, mas que me lembro eu li o Pentateuco, Isaías, Tobias, Baruc, Ester, Salmos, Provérbios, Cântico dos Cânticos, Samuel, Sabedoria, Reis, Jó, Eclesiastes, Jeremias, Habacuc, Esdras, Malaquias, Balzac, Marduk, Karnak, Lamentações, e todo o novo testamento.

E vejo absurdos sendo proferidos por leigos e religiosos.

Mas, no caso, é tudo uma questão de interpretação.

Por exemplo, aquele famoso momento do Gênesis onde Adão e Eva são expulsos do paraíso.

Porque Adão foi expulso? Por comer uma maçã.

Esse fruto é simbólico, e pode representar o órgão sexual feminino.

Já Eva foi punida porque seduziu Adão, enganada por uma cobra - símbolo fálico.

Logo, o que temos?

Está bem claro: Deus quer que você seja homossexual!

Oras, se ele pune Adão por manter relações com Eva, por comer do fruto - órgão sexual feminino - e pune Eva pelo seu relacionamento com a serpente - órgão sexual masculino -, logo ele não quer o intercurso sexual hétero!

Ainda mais que Eva é punida com as dores do parto! Logo, reproduzir-se é uma praga divina!

Deus quer, e com justiça, eliminar a raça humana, impedir que ela continue a existir, que ela procrie (lembra do dilúvio?).

E melhor maneira de se fazer isso é pelo ato homossexual, que não gera descendentes.

Por isso, por exemplo, ele manda Abraão matar o filho.

Se você procriar um dia, mate o filho.

(Por aborto, claro... é mais fácil.)

Mas você se pergunta: mas e eu, que não sinto atração pelo mesmo sexo?

Daí é que vem uma das maiores obras do Senhor: o orgasmo!

Deus, que é amor onipotente, quer mais de você: quer que você tenha prazer!

É só ler o Cântico dos Cânticos, ou o Kama Sutra da Bíblia.

"Queremos contigo exultar de gozo e alegria,
celebrando tuas carícias, superiores ao vinho"

É esse amor que ele quer que pratiquemos, acompanhado claro do álcool (vinho) e de gozo e alegria!

Deus, como a Marta, quer que você relaxe e goze!

Sodoma e Gomorra, por exemplo, não foram destruídas pela perversão!

Provavelmente, pela falta de camisinhas disponíveis, eles acabaram procriando.

Quando deveriam apenas cultivar a orgia, como quer Deus.

Claro que certos comportamentos não devem ser levados à risca por sociedades modernas, pois são baseados em conceitos datados e que hoje são condenáveis.

Jesus, por exemplo, apóia a pedofilia quando diz "venham a mim as criancinhas". Mas isso não te dá o direito de manter relações sexuais com jovens infantes!

A prática só é aceita, ainda, dentro da vida sacerdotal da Igreja Católica.

Faz parte das obrigações dos padres.

Mas você, irmão, não se arrisque.

A Bíblia diz que é certo, mas dá cadeia.

Como ter duas ou mais esposas: é certo segundo a Bíblia, mas dá cadeia aqui.

Por esses motivos não entendo os religiosos que criticam a promiscuidade... Deus quer que você seja promíscuo.

Aliás,

Deus não vê essas coisas como promiscuidade.

Deus está é de saco cheio de tanto cristão procriando!!

Amém.

sexta-feira, 11 de março de 2011

8,9


(...)Ó infelizes mortais! Ó deplorável terra! Ó agregado horrendo que a todos os mortais encerra! Exercício eterno que inúteis dores mantém! Filósofos iludos que bradais «Tudo está bem»; Acorrei, contemplai estas ruínas malfadas, Estes escombros, estes despojos, estas cinzas desgraçadas, Estas mulheres, estes infantes uns nos outros amontoados Estes membros dispersos sob estes mármores quebrados Cem mil desafortunados que a terra devora, Os quais, sangrando, despedaçados, e palpitantes embora, Enterrados com seus tectos terminam sem assistência No horror dos tormentos sua lamentosa existência! Aos gritos balbuciados por suas vozes expirantes, Ao espectáculo medonhos de suas cinzasfumegantes, Direis vós: «Eis das eternas leis o cumprimento, Que de um Deus livre e bom requer o discernimento?» Direis vós, perante tal amontoado de vítimas: «Deus vingou-se, a morte deles é o preço de seus crimes?» Que crime, que falta cometeram estes infantes Sobre o seio materno esmagados e sangrantes?

Voltaire, Poema sobre o desastre de Lisboa

quinta-feira, 10 de março de 2011

Terrorismo Religioso

Eu sou contra o fanatismo religioso, por princípio.

O principal motivo é porque ou contra a religião como conceito, idéia, instituição ou fundamento.

Acho errada e nociva a sua existência, não traz benefício algum à ninguém, servindo apenas de mecanismo alienador e ferramenta de opressão dos direitista atrasados e fascistas.

Religião é a imposição de uma verdade única e absoluta, que se apropria do ser e da razão em prol de fins mesquinhos.

Qualquer religião é fascismo.

Por isso, toda vez que leio a palavra DEUS me sinto sendo oprimido por um terrorismo ideológico.

A utilização do caps lock em DEUS me soa como uma pessoa com uma bíblia grudada ao sovaco gritando na minha orelha.

Mais ainda, o mesmo ocorre quando leio JESUS. E ultimamente tenho lido JESUS muito mais frequentemente que DEUS, pois é a arma pentecostal do messianismo básico.

Da mesma forma que a exposição de cartazes dos famosos "grupos de oração" na universidade onde estudo me causa ojeriza.

Vou a universidade todos os dias estudar.

Orar é algo que se faz em casa ou na sua igreja.

A universidade é laica.

Da mesma forma que é proibida a propaganda política na universidade onde estudo, esse tipo de entidade deveria ser banida.

(Como disse uma amiga minha hoje, grupo de oração é lugar pra arranjar marido).

Mas não. Todo dia vejo cartazes de GOU (Grupo de Oração Universitário) e ABU (Aliança Bíblica Universitária) no campus e penso seriamente em fundar a GAS (Grupo de Adoradores de Satã).

Será que alguém me impediria de divulgar?

Bem, para todos os efeitos, essa exposição religiosa é um tipo de terrorismo também.

A evangelização, em si, é um terrorismo.

E eu não sou contra terrorismo, sou muito é a favor.

Acho que os palestinos tem que enviar os israelenses pro raio que o parta mesmo.

Tomaram as terras deles, é justo.

Mas Jesus pra mim se escreve assim, como qualquer nome de pessoa ou ser maravilhoso.

Como João ou Hércules.

E deus, mais ainda, se escreve com "d" minúsculo.

O nome do seu deus, meu querido cristão, é Javé, ou IHVH.

Deus é um nome genérico de toda e qualquer entidade venerada por um grupo.

Pra mim, deus deveria ser escrito em minúscula, sempre.

Já que, pra mim, ele não passa de mais um amigo imaginário de adulto.

Mas, numa sociedade que permite grupos de oração na universidade laica e quem tem o dizer DEUS SEJA LOUVADO em sua moeda, é de se esperar esse tipo de comportamento.

Que parece cada vez mais opressor, crescendo em direção a um fanatismo perigoso.

Acho que é mesmo hora de fundar um grupo... vai me ajudar a conseguir umas gatinhas e uns amigos.

Que tal o BREJA (BRasileiros Estudantes Jovens Ateus)?

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PS: Em homenagem aos descrentes, KAFIR!



quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Impropério do dia

"O que vem incomodando essa gente é que a imprensa vem apresentando notícias que mostram abusos, nepotismo e maracutaia com o dinheiro público. Essa imprensa incomoda os donos do poder. E é só isso. Não é nenhuma objeção doutrinária que eles têm. É uma posição de conveniência. Não há país democrático no mundo sem imprensa livre. Aqueles que perseguem hoje a imprensa vão mais tarde perseguir credos religiosos. E essa perseguição não tem fim"

José Serra, candidato à Presidência.

Meu comentário? Se algum candidato tivesse culhões de peitar qualquer religião, eu votava de olhos fechados nele...

GOLPE


Perdida a eleição, os neoliberais e o tucanato, apoiados pela corja mais suja da mídia, dos movimentos religiosos e dos coronéis buscam derrubar o partido do Presidente Lula do poder de qualquer jeito.

A mídia noticia, diariamente, a suposta fuzarca na Casa Civil, como se Dilma ainda fosse ministra.

Manifestações como a de ontem, em SP (a cidade que mais merece ser bombardeada nesse mundo, depois de Vaticano e Jerusalém), mostram a face mais conservadora de uma parcela da população que usa cordão de isolamento pra se relacionar com o povo e limpa as mãos quando cumprimenta nordestinos.

Cansados de serem ricos, cultos e brancos governados por pobres, analfabetos e nordestinos, eles tentam o golpe, e vociferam por uma liberdade e democracia que não tem nada de francesa.

(Quando a França, aos moldes do que querem esses fascínoras, expulsam estrangeiros pobres do seu país, exemplo de fraternité)

Enquanto suas filhas tem como única meta na vida dar pros meninos do Restart ou pro Fiuk, os nossos medíocres paulistanos brancos buscam voltar a serem o centro do universo. Não conseguem aceitar, como nunca conseguiram, os direitos dos pobres.

Quando vejo o crescimento de ABU(B)s nas universidades (na sua busca incessante pela fundação de um departamento do Dízimo Pentecostal em cada curso superior), da ANJ (também conhecida como a Associação dos DONOS de Jornais), dos amigos da Ana Maria Braga (também conhecidos como os homeopatófilos leitores do "Segredo") e da corja organizada de tucanato, penso que é muito fácil de entender como a Dilma cresce nessas eleições (apesar do Datafoda-se achar que não).

É nojo.

Assim como a mediocracia branca tem nojo de nordestinos pobres, agora os nordestinos pobres tem nojo dos enfarinhados (snif) branquelos da Tradição, Família e Propriedade.

Chorem agora! Nem o Luan Santana vai satisfazer as pererecas em chamas das viúvas da ditadura.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Quem me dera...

Muitos e-mails e mensagens tem chegado nos últimos dias à minha caixa de e-mails contendo mensagens de ataque à candidata Dilma, provavelmente tentando convencer-me - e ao povo - de que o melhor a fazer é não votar nela.

Muitos deles tem origem numa campanha de várias instituições religiosas, que atacam Dilma por motivos tão diversos quanto a defesa do aborto e o seu passado de guerrilheira.

Tanto é que o PT foi obrigado a reagir, mandando imprimir um boletim para afastar essas discussões de alçada religiosa.

Mas, o que eu acho mais interessante, é que as pessoas acham que me convencem a não votar em um candidato pelo fato de ter um passado de comunista e guerrilheiro. É interessante, ainda, como as pessoas acham que ter feito parte de luta armada é o mesmo que ser criminoso, que votar em alguém de orientação originariamente comunista, marxista ou ao menos esquerdista é uma péssima escolha política.

Como se um dos principais motivos pelo qual eu voto na Dilma não fosse justamente esse.

Muitos ainda a ligam (e ao presidente Lula) à ação de grupos organizados como o MST.

E eu penso: ah, que bom seria se a relação entre o PT e o MST fosse tão mais estreita como as pessoas pensam!

Em verdade, nesse caso, o melhor a se votar seria o Plínio, já que ele é defensor de invasão de terras, da apropriação e do fim do latifúndio. Mas, como eu sei que a candidatura do PSOL tem mais força na Câmara que no executivo, voto nos deputados do PSOL em prol de uma luta mais séria por tais temas no congresso.

Ah, quem me dera que a minha candidata fosse tão comunista como a pintam.

Que ambos fossem tão marxistas a ponto de serem ateus! Muito melhor seria um presidente ateu e comunista, marxista e ex-guerrilheiro que um administrador pai de família ou um economista fiel a deus.

Quem me dera a minha candidata fosse a favor do aborto e da união entre homossexuais. Que fosse ela a única a decidir a favor dessas questões, sem ter que passar por um congresso cheio de políticos corruptos, direitistas, conservadores, atrasados e proselitistas.

Que maravilha seria ter uma candidata capaz de limpar o congresso da evangelização burra, do interesse dos donos de terra, dos aproveitadores baratos.

Ah, que bom seria se a ligação com movimentos revolucionários fosse assim tão forte, se a minha candidata tivesse mesmo matado inimigos em prol da liberdade de seu país.

Que bom seria se a candidata que pintam fosse mesmo a Dilma Roussef.

quinta-feira, 25 de março de 2010

But all punishment is mischief: all punishment in itself is evil.

Escrito tendo em mente um episódio de uma série americana, discos de black metal e a opressora campanha pela punição de criminosos com a morte, o texto a seguir contém opinões pessoais - mas as consequências dos atos das pessoas que servem aqui de exemplo são universais. Meu objetivo aqui nada mais é que a reflexão, nunca o doutrinamento filosófico ou político. Sou contra qualquer tipo de evangelização, religiosa ou não.
Ah, e um lembrete de última hora - há ligeiras menções ao episódio dessa semana do Lost. Para aqueles que temem por resvalar em leves spoilers, fica o alerta... mas acho que nada do que direi aqui é muito revelador. (agradeço ao Arthur Malaspina pela dica)


Como caíste desde o céu, ó estrela da manhã, filha da alva! Como foste cortado por terra, tu que debilitavas as nações! E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono, e no monte da congregação me assentarei, aos lados do norte. Subirei sobre as alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo.
Isaías 14:12-14

Ontem o grupo de loucos fanáticos do qual faço parte teve diante dos olhos sérias revelações sobre o universo de uma das mais intrigantes peças de arte da modernidade.

Isto é, ontem foi exibido nos EUA Ab aeterno, o nono episódio da 6ª e última temporada de Lost.

Onde vislumbramos o passado de um homem imortal, passado que expõe as antagônicas figuras de Deus e do Diabo, em suas encarnações "Lostianas".

Não quero falar mais... quem quiser entender melhor o caso deve assitir essa magnífica narrativa.

Mas a questão me levou a outro ponto...

Boa parte do que se coloca nesse final eletrizante dessa série é a oposição mais fundamental que rege a humanidade.

O que é o bem, e o que é o mal?

Para muitas pessoas, lados opostos da mesma moeda.

Para a maioria dos ocidentais (e alguns orientais), Deus e Satã.

Mas quem é esse ser demoníaco que atende por diversas alcunhas?

Porque é tão intrigante, até fascinante?

O tentador, o sedutor...

Vésper.

Considerar as aproximações entre o gênio e a tradição místico-religiosa que
engendrou a figura complexa do Adversário é algo importante, sobretudo devido ao
fato de que o mito do grande oponente do Deus judaico-cristão – sobretudo cristão,
na relidade – não possui uma continuidade histórica unívoca. Embora seja uma idéia
bastante difundida atualmente vale lembrar que a religião dos hebreus, na base
mítica do judaísmo tardio e do cristianismo, não apresentava, a partir de seus textos
sagrados, a figura do Diabo tal como o conhecemos hoje. Na verdade, uma série de
elementos reconhecidos pelo cristianismo como pertencentes à esfera do Diabo não
o eram a princípio. A serpente do Éden, o Satã do livro de Jó, a Estrela da Manhã do
livro de Isaías, assim como a figura do Dragão de antigos mitos de confronto entre
Caos e Ordem ou deuses ctônios de povos inimigos, nada era a princípio parte de
um mito complexo e tardio (mas de evidente força) (PRADO, 2007).

É interessante a experiência do ser humano, levando em conta essa reflexão, com a figura demoníaca.

O demônio faz parte da vida de todos, como Deus... o problema é que, como vivemos a mitologia cristã, não há em nosso mundo uma discussão séria sobre o papel do mal em nossas vidas.

E o diabo não é, por assim dizer, o mal.

Ele é o adversário. O contestador da ordem.

O revolucionário, por assim dizer.

Assim como ele aparece em Lost, como o inimigo de Jacob.

Assim como ele tenta e corrompe... mas também apresenta caminhos mais fáceis para o mesmo destino.

Eu conheço esse discurso não só da igreja aliás.

Há alguns anos, virei grande fã de Metal Extremo, e descobri no Black Metal pessoas criativas, habilidosas e excelentes músicos.

Nunca fui fã, admito. Mas hoje posso falar sobre algumas bandas que levam a bandeira do estilo com muita responsabilidade.

Mas há outra bandeira... e outro Black Metal...

O de Satanás.

Existem, é claro, dois Satanás aqui.

Um é apenas um personagem de narratvas de jovens músicos preocupados apenas com sua música, para quem Satanás é símbolo de rebeldia, como o foram as drogas e o sexo livre.

O outro, o símbolo do mal, é o patrono de uma seita surgida nos meandros da "sociedade metálica".

Aquela seita que queima igrejas, que mata.

De gente como Varg Vikernes... e Ghaal:


Mas, é claro, nada disso tem mesmo a ver com Satã.

Tem a ver com a estupidez humana...

A falta de noção dos limites entre o racional e o irracional.

E é quando ligo a tevê que me deparo com cenas que me fazem repensar ainda mais como o ser humano lida com o mal.


O caso de André Luiz dos Santos, empresário de 49 anos, é emblemático. Ele saiu de Ponte Nova (MG) para protestar, carregando uma cruz de madeira de aproximadamente 1,8m de altura pesando cerca de 30 kg. Em frente ao fórum, André se amarrou à cruz com cartazes pendurados e fotos de Isabella.

Para a maioria das pessoas, os Nardoni do afamado caso Isabella são não apenas culpados...

Para André, que afirmou que “Isso não tem relação com Cristo. Tem relação com a paz”, o que são os Nardoni senão uma encorporação terrena do que é o mal.

Para a maioria dos espectadores desse caso, para as milhares de pessoas que fazem vigília à porta do fórum, os Nardoni são o mal.

Não devem pagar com 30 anos de cadeia, devem morrer.

Como eram apedrejados os blasfemadores e as prostitutas em tempos antigos.



E ainda o são em alguns países onde quem manda é a "lei de Deus".

A maior parte da população espera dos seus líderes mais a lei de Deus que a dos homens.

A lei que pune com sangue, do olho por olho, do velho testamento.

Assim, o julgamento do caso Isabella acabou antes de começar.

Porque existe sim a chance deles serem inocentes.

Mas os Nardoni já são culpados. Nunca mais vão poder voltar à sociedade.

Mesmo julgados inocentes, serão penalizados por uma sociedade que não entende o mal.

Ou o bem.

Que julga os homens pelos mesmos motivos mesquinhos que julgava há séculos.

Que não tolera, não entende e se vinga.

E que prefere o conformismo de Deus ao questionamento do Diabo.

"“Deus”, “imortalidade da alma”, “redenção”, “além”, todos esses são conceitos que nunca levei em conta; nunca com eles sacrifiquei meu tempo, nem mesmo em criança; talvez nunca fosse bastante ingênuo para fazê-lo? Para mim o ateísmo não é nem uma conseqüência, nem mesmo um fato novo: existe comigo por instinto. Sou bastante curioso, suficientemente incrédulo, demasiado insolente para contentarme com uma resposta tão grosseira. Deus é uma resposta rude, uma indelicadeza contra nós, pensadores; antes, dizendo-se a verdade, não é senão um tosco empecilho contra nós mesmos: não deveis cogitar dele!"

Nietzche, Ecche Hommo

O fundamento do ato do Sr. André me leva também a outro "Jesus Cristo" moderno.


Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, de 24 anos. Que segundo consta queria levar Glauco, o cartunista, para dizer à sua mãe que ele era Jesus.

Um desequilibrado, sem dúvida, mas nunca pelo daime.

Uma seita, sim, mas não menos nociva que o catolicismo, os cultos evangélicos ou outra que seja.

Desde o oráculo de Delfos até o Daime temos milênios de transes hipnóticos e curas místicas para males.

Cadu, assassino de Glauco e de seu filho, é tão vítima quanto os dois.

Quanto Isabela.

Mas o mal - ah, o mal - o mal é uma característica dos homens!

Deus, que observa, rege e pune, é o bem.

Lúcifer, que contesta, negocia e liberta, é o mal.

Disso se fazem os psicopatas, dentro e fora das religiões.

Dentro, temos crápulas como Edir Macedo, cujos fiés seguem como a um novo Jesus, e que propaga que o mal se encontra, por exemplo, no candomblé.

Ou seja, uma religião de todo um povo é símbolo do mal para muitas pessoas...

E não é coincidência que seja a religião de negros, de pobres.

Assim é para católicos, pentecostais, ou simplesmente supersticiosos.

Porque toda religião nada mais é que uma superstição institucionalizada.



Mas a bola levantada pelo Lost lembra-nos também de um outro aspecto dessa relação: o livre-arbítrio. A capacidade do homem de escolher seu caminho.

O deus de Lost não pune, ele controla as vidas de um grupo de coitados para fazê-los crer em suas capacidades e, assim, provar ao seu "inimigo" que é o lado "branco" da moeda.

Se é que isso já não é uma punição.

Crer ou não não é a questão.

Eu não creio.

(e por vezes tenho medo de quem crê)

Mas a questão é: o que se faz em nome do bem e do mal se justifica?

E o que, afinal, são bem e mal? São Deus ou Satã?

É melhor viver para sempre na doutrina dogmática de Deus ou se libertar na vida corrompida de Satã?

O homem não nasceu para sofrer, para ser punido.

Não nasceu para se submeter.

De Nardonis, Ghaals, Cadus e Macedos eu tiro uma conclusão:

Nós, os mortais, criamos Deus e Satã. Somos maiores e melhores que eles.



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PS:
O título do texto ("Toda a punição é maldade; toda a punição em si é má") é uma frase de Jeremy Bentham, figura com a qual não concordo 100%, mas que cunhou uma frase genial.

Uso aqui um trabalho fenomenal de um grande amigo:
Prado, Márcio Roberto do. Vésper – 2007. Disponível em: http://www.fclar.unesp.br/posestlit/teses/marcio_roberto_do_prado.pdf

Agora um alívio cômico da MadTv: Toque de um Ateu:

George Carlin rules!!