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domingo, 16 de dezembro de 2012

Futebol e a Alienação Coletiva


http://globoesporte.globo.com/futebol/mundial-de-clubes/fotos/2012/12/fotos-corinthians-vence-chelsea.html
Antes de começar, saliento que a seguinte postagem surgiu de diversos comentários e postagens no facebook, especialmente de uma postagem do Bule Voador, que perguntava:
"PARA VOCÊS, O QUE LEVA AS PESSOAS A FORMAREM VÍNCULOS TÃO INTENSOS COM OS TIMES DE FUTEBOL? POR QUE ESSAS PAIXÕES PODEM SER TÃO INTENSAS?"


A partir da resposta que elaborei a essa pergunta, mais vários textos que publiquei por todo do dia, organizei o Frankenstein a seguir. Espero que faça algum sentido...

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Nesse fim-de-semana tivemos um novo campeão mundial: o Corinthians, com garra e um belo futebol, venceu o apagado Chelsea por 1 x 0 e conquistou o mundo num ano irretocável.
Mas tem gente que não vê razão para a alegria alheia. Tem gente que acha que paixão por futebol não passa de alienação, de pão e circo. Que não vale a pena comemorar gols de jogadores esnobes, que beijam a camisa hoje, mas trocam seu time por qualquer boa oferta amanhã. Gente que se enfeza com os fogos, a festa, o espaço na mídia, tudo relacionado ao futebol. E ai de você se falar que o Brasil é o país do futebol!
Não entendo o motivo de tanta gente reclamar do futebol. Acham, por alguma reflexão cósmica, que o futebol é "alienante" em si, como se necessariamente ele fosse um pressuposto para uma irracionalização do sujeito. Discordo veementemente de qualquer pessoa que colocar o futebol como processo de alienação ou coisa do tipo, pois há vários momentos em que o esporte, como representação simbólica, serviu para mudanças ou lutas sociais importantes. É clichê, mas como dez um camarada corinthiano, preciso citar o saudoso Dr. Sócrates:


Fonte: Futrico.net
"Conseguimos [com a Democracia Corintiana] provar ao público que qualquer sociedade pode e deve ser igualitária. Que podemos abrir mão de nossos poderes e/ou privilégios em prol do bem comum. Que devemos estimular a que todos se reconheçam e que possam participar ativamente dos desígnios de suas vidas. Que a opressão não é imbatível. Que a união é fundamental para ultrapassar obstáculos indigestos. Que mesmo as dificuldades nos são potentes professoras. Que o convívio com pessoas que pensam e agem de forma absolutamente fascista não é impossível. Que uma comunidade só frutifica se respeitar a vontade da maioria de seus integrantes. Que é possível se dar as mãos.

Quem sabe um dia verei, mesmo que lá de cima, acontecer o mesmo com nosso país. Talvez nossa nação possa viver um amanhã justo, ético e puro."

(Sócrates, em "Democracia corintiana: a utopia em jogo")


Isso posto, venho ao contexto da paixão: um clube de futebol é uma agremiação que possui, antes de tudo, uma identificação com uma comunidade, seja ela uma cidade, um bairro, um estado, um país, etc. São Paulo, que é uma grande cidade, tem vários clubes e, na sua maioria, eles se originam de bairros.
Aí passamos para a indústria cultural, que assimilou, a meu ver, a "paixão" do torcedor e a pasteurizou. Na sociedade capitalista moderna, a indústria cultural vive de marketing, e mesmo o sentimento pode ser reproduzido e, a partir dele, gerar uma série de possibilidades de vender produtos e conseguir lucro. O homem da sociedade atual vive uma crise de representação, muito causa e ao mesmo tempo consequência da massificação, e nesse vácuo existencial trabalha o produtor de propaganda, ao fetichizar o produto que deseja vender, e ao ressignificar a relação de simpatia que o indivíduo tem com seu time do coração. Não que a paixão não existisse antes, mas ela se acirra cada vez mais pois cada vez mais os clubes tem mais espaço de exposição na sociedade. Ao ser assimilado, o futebol cresceu (mais investimentos, patrocinadores maiores, etc) e, no caso do Brasil, a TV permitiu que houvesse uma abrangência maior (e consequentemente um maior impacto) dos grandes times das grandes capitais. Além disso, como desde sua chegada o brasileiro se identificou com o futebol, o esporte se tornou ícone de identificação nacional antes mesmo de se tornar o produto rentável que é hoje. Mas não sou sociólogo pra entender (e explicar) isso mais a fundo, perdoem-me.

Um exemplo de incongruência e distorção da realidade ao tratar o futebol como mera alienação: como acertadamente lembrou um amigo meu, o time do Al Ahly que disputou o Mundial de 2012, esteve politicamente envolvido na chamada "Primavera Árabe", e sofreu retaliação por parte dos apoiadores de Mubarak naquele triste evento do massacre de Port Said: "Tem sido amplamente  observado que as circunstâncias do motim são suspeitas na melhor das hipóteses. O massacre veio no aniversário de um ano da tomada da Praça Tahrir por um grupo de contra-revolucionários pró-Mubarak. Foi dirigido a um grupo conhecido por manifestar uma agenda política liberal através do apoio de uma equipe fundada em nome dos trabalhadores historicamente vulnerabilizados e estudantes. E isso ocorreu em um momento em que o governo militar interino pediu aos cidadadãos para apoiar a extensão dos poderes de emergência, e com a cumplicidade aparente da aplicação da lei e da segurança do estádio."
Fontes - imagem:: facebook. Citação: ESPN

O crescimento da paixão para algo doentio não é exclusividade nacional: lembrem-se do fenômeno hooligan na Inglaterra, ou da violência nos estádios da Turquia. O esporte pode ser uma válvula de escape para frustrações, preconceitos, questões de identificação, enfim. E isso, a meu ver, se aproxima um pouco da fé religiosa extremada (e acho que o interesse do post do Bule Voador foi fazer essa ponte) apenas pelas consequências, não pelas origens, da paixão. Na verdade, ao representar sua paixão concretamente, o indivíduo preenche o vácuo da sua crise com o futebol como o religioso preenche com a fé, mas daí a gerar fanatismo e a consequente violência, a coisa é mais complexa. Ela não é intrínseca, a meu ver, nem à religião nem ao futebol: ela se dá pelo motor da construção coletiva de um movimento em direção à substituição das urgências do indivíduo pela fé ou pelo time, como símbolos de uma ausência (a crise) que ele preenche na paixão exacerbada. Não obstante, ambos, o fanático religioso e o futebolístico, criam inimigos e a violência que conduzem contra seus inimigos faz parte desse processo todo.
Ontem estava lendo na internet textos sobre Dissonância Cognitiva, algo que ajuda a explicar o que estou querendo dizer. Cito a Wikipédia:
Dissonância cognitiva é um termo da psicologia social, que se refere ao conflito entre duas idéias, crenças ou opiniões incompatíveis. Como esse conflito geralmente é desconfortável os indivíduos procuram acrescentar "elementos de consonância", mudar uma das crenças, ou as duas, para torna-las mais compatíveis. Este efeito foi descrito pela primeira vez numa experiência realizada nos Estados Unidos por Leon Festinger e Carlsmith em 1959.

Trata-se da percepção da incompatibilidade entre duas cognições diferentes, onde "cognição" é definido como um qualquer elemento do conhecimento, incluindo as atitudes, emoção, crenças ou comportamentos. A dissonância ocorre a partir de uma inconsistência lógica entre as suas crenças ou cognições (por exemplo, se uma ideia implicar a sua contradição). A consciência ou a percepção de contradição pode tomar a forma de ansiedade, culpa, vergonha, fúria, embaraço, stress e outros estados emocionais negativos.


Quando surge a oposição a uma cognição enraizada como um pressuposto autoreferente (todos acreditam em Deus/todos torcem pelo meu time), surge a violência pela incompreensão da alteridade. Pode parecer um exagero, mas para o torcedor fanático, o adversário é o símbolo da alteridade máxima e, por isso, a sua existência é uma inconsistência lógica da sua cognição. Isso gera várias reações, porém por uma crise de identidade e representação do sujeito da contemporaneidade, a reação em geral se dá por esses estados emocionais negativos. A reafirmação de sua paixão completa o sujeito, pois essa paixão está intrinsecamente associada tanto a sua identidade de grupo quanto a sua representação como indivíduo.

A fábula da raposa e as uvas, de Esopo, é um dos exemplos dados pela Wikipédia de dissonância cognitiva: "Quando a raposa percebe que não consegue alcançar as uvas, ela decide que não as quer de qualquer modo, um exemplo da formação adaptativa de preferências, com o objetivo de reduzir a dissonância cognitiva."
É só pensar no fenômeno corinthiano, do clube de massa, que amplia o escopo de realização do indivíduo cerceado pela opressão social. Eu, são paulino que sou, já neguei isso em não tão priscas eras, mas um amigo corinthiano me fez perceber como esse universo da favela, do pobre, agregado simbolicamente pelo Corinthians expandiu as possibilidades de percepção do indivíduo marginalizado, fazendo-o se compreender como algo além e espelhando-se nas conquistas de seu time. O mesmo processo ocorre quando você vê a quantidade de pessoas que ainda votam e dão suporte ao presidente Lula, mesmo depois de tantos casos de corrupção ligados a ele. A recente ascensão da classe C também explica isso.
Como respondi a uma outra amiga, o futebol é uma representação simbólica, do ponto de vista da identificação "mítica", digamos assim, não da identificação explicitamente ideológica. O futebol cria mitos e é sustentado por esses mitos, e é só observar os termos associados ao futebol para perceber que estamos no ambiente do mais puro imaginário mítico: a magia, o fenômeno, o fantástico, o mágico... tudo isso faz parte do ambiente extremamente importante do imaginário, e tudo está lá: num chute que acerta o ângulo, numa defesa impossível, numa vitória de um time pequeno, numa disputa de pênaltis, num drible certeiro, numa jogada que fica pra história.
No caso da ideologia fica complicado se identificar, em geral, pela própria maneira como o esporte é gerido. A constituição da sociedade brasileira, que faz com que apenas os mais pobres se tornem jogadores, leva a uma identificação dos torcedores com as origens dos jogadores, mesmo que depois eles rumem para outros clubes e ostentem suas conquistas financeiras. Muitos jogadores fazem projetos sociais em seus locais de origem, como a fundação Cafu, mas acho que o alcance disso está sempre limitado pelos reais culpados pelos problemas do futebol: os dirigentes. Eles precisavam ter uma visão diferente para que o esporte pudesse atingir efetivamente as massas como algo mais construtivo. Mas, do ponto de vista simbólico, é algo bem forte e muito útil o futebol.
Mas, concluindo de maneira incisiva, eu não concordo e, com o perdão da força da palavra, não respeito a opinião de quem reduz o futebol a um mero fator de alienação. Ele é mais uma consequência que um agente e, sinceramente, quem afirma isso tem uma percepção distorcida ou, pelo menos, muito restrita, da realidade social e psíquica que o circunda.
Eu acho incrível que, no fim das contas, as manifestações de todos os lados só deixam mais claro as pessoas amargas e hipócritas que a nossa sociedade criou: quando rola festa de um time por ser campeão todo mundo reclama do pão e circo, diz que futebol é ilusão, alienação, etc. Agora quando vai votar, defender seus direitos, mudar a sociedade efetivamente, ninguém sabe nada de história, nem da mais recente, e ninguém quer debater e discutir sobre política, sobre filosofia, sobre religião... e chama o fã de futebol de alienado! Quando um moleque sai pra rua pra defender seus direitos, é um vagabundo que só quer confusão e, ao invés de estudar, esbanja o dinheiro dos pais com drogas. Quando um professor ou um trabalhador entra em greve, é um vagabundo que deveria estar trabalhando ao invés de protestar. 
Véi, na boa? Alienado é você, que fica debatendo novela da Globo, engolindo passivamente programas mixurucas de tv e se emocionando com as frases supérfluas do Pedro Bial enquanto torce pra seu Big Brother no facebook, e não tolera um momento de alegria de quem gosta de futebol. Excetuando quem reclama pelos seus animaizinhos, que sim, sofrem pacas com fogos de artifício, gastos em exagero nesses momentos, tenho certeza que os que reclamam não estavam na missa, no culto ou no terreiro, orando pra mentira qualquer em que vocês acreditam, durante o jogo de hoje... Mas no carnaval, no reveillon, a quermesse ou em qualquer outra festa você vai estar comemorando muito, né? Até soltando rojão!
Perdão, caro pseudo intelectual de facebook, mas antes de você nascer, o Dr. Sócrates já tava lutando pela sua liberdade. Por isso seja menos imbecil e mais tolerante: não é porque você é infeliz que os outros tem que ser também.
Pode fazer festa Corinthiano! Você merece.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Libertadores é Cosa Nostra 2


http://esportes.r7.com/blogs/cosme-rimoli/2011/07/22/a-festa-de-kia-joorabchian-no-brasil-nunca-acabou-chegou-agora-ao-sao-paulo-futebol-clube-quem-diria/


Ontem publiquei um texto sobre minhas impressões da chegada do Corinthians à final da Libertadores.
Mas, como disse em uma discussão com um amigo corinthiano no facebook, eu fiz o texto, no caso, porque o Corinthians é a bola da vez. Ele é quem está disputando o título, não o São Paulo ou o Santos. Mas, no fim, tanto faz. Porque a corrupção está no campeão europeu Chelsea, nos clubes do Rio (essa contratação do Seedorf não me desce), em todo lugar. Agora a vez é do Corinthians, como já foi dos outros...

E, como prometi a esse amigo corinthiano, vou começar a meter o pau de outro ângulo.

O São Paulo, meu time de coração, ganhou três títulos da Libertadores. Ele tem um grande estádio, moderno, um CT de referência internacional, três mundiais...
Mas isso justifica o que o Juvenal anda fazendo?
http://nossofutebolfc.blogspot.com.br/2011/05/coluna-do-guilherme-silveirao-problema.html
Isso Justifica sua reeleição?
E, principalmente, isso justifica o que aconteceu no último jogo, com os jogadores hipocritamente dedicando a vitória ao seu presidente? Isso, claro, porque ele tirou do time o "problema" que o fez perder tudo esse ano, um problema chamado Leão. A postura dos funcionários com o patrão apresentam uma hipocrisia histórica do futebol, onde o técnico é o cara mais culpado pelos erros de um time todo.

Mas quem, sucessivamente, tem tomado decisões administrativas como... contratar o Leão? É justo elogiar o presidente de um clube por demitir um técnico problema quando ele mesmo foi quem o escolheu como técnico, mesmo sabendo de seu histórico de más relações com jogadores, para comandar um time já desestabilizado? 

Aliás, é justo elogiar quem comprou  uma reeleição?
Quando você é funcionário, é um caminho fácil pra garantir seu salário. Ainda mais quando você é um Luis Fabiano da vida, que vive machucado e não tem metade do futebol de antigamente e precisa se autoafirmar perante a torcida.


Agora, a torcida alienada do São Paulo sempre cai nessa.
E a alienação do São Paulo é histórica, diferente da alienação da torcida corinthiana.
Como não falar (e essa crítica feita a mim eu aceito e busco me redimir agora) da estranha história da construção do Morumbi? Se quiser dados mai específicos, é só ir à Wikipédia:


No dia 31 de outubro de 1956, o então prefeito de São Paulo, Wladimir de Toledo Piza, autorizou um empréstimo de CR$ 5.473.000,00 da Prefeitura e CR$ 5.500.000,00 do Governo do Estado (juntos, representam 4,54% da obra), para a construção do estádio.


Isso, claro, com a influência direta do governador biônico Laudo Natel, ex-presidente do clube.

Enfim, isso pra dizer: quem pode falar de corrupção no futebol? Quem pode defender a idoneidade dos dirigentes do seu time?
O Vasco de Eurico Miranda, de Dinamite? O Cruzeiro do Zezé Perrella? O Palmeiras do Mustafá Contursi e Tirone?
E isso não é um mal daqui do Brasil. Só que aqui a coisa é mais, digamos, descarada.


Aqui, um time ainda vê na contratação do Luxemburgo, um mafioso desmontador de times, um avanço.
Aqui um time como o Flamengo serve de guarida para todo tipo de "degredado" do futebol. Aqui se especula, inclusive, a volta do goleiro assassino Bruno ao futebol!
Aliás, pior, aqui se produz gente como ele. Aqui estimula-se o comportamento de Adrianos, Ronaldinhos, Wagners Love etc.
E, mais uma vez, o que dizer da contratação de Seedorf pelo Botafogo?


Bem, feito o adendo, hora de voltar ao Corinthians.

http://timaoblogfiel.blogspot.com.br/2011/04/se-ninguem-gosta-do-tite-porque-ele-e.html
Torci abertamente para o Boca Juniors, porque sou são paulino, mas também porque não respeito a máfia por trás da promoção desse time.
Como Inês é morta e o Corinthians finalmente ganhou sua Libertadores, acho que deveria dar um desconto e parabenizá-lo pelo seu tão suado e merecido título, certo?
Errado. Quem mereceu esse título foi o Tite.
O craque desse time foi apenas ele, mesmo que com lampejos de bom futebol do cerebral Danilo e do aguerrido Émerson.
Aliás, claro, o Boca fez de tudo pra ganhar esse título, mas foi mais camisa e briga que futebol. Os argentinos dependeram demais do Riquelme, que catimbou como sempre, é o jeito que eles jogam.
Mas não é por isso que eu vou dar parabéns por algo que eu acho estar errado.
Como disse, quem merece esse título é o Tite. Não a diretoria, não a torcida.

Vá lá, parte da torcida merece. A parte que se comporta decentemente.
Mas parabenizar a TODOS os corinthianos seria como parabenizar, por exemplo, Juvenal ou a Independente pelas vitórias do São Paulo.

Há uma boa parcela, uma grande parcela desses torcedores que nem merecem serem chamados de torcedores por inúmeros motivos. O principal é a alienação.
A alienação que faz um torcedor compartilhar tal imagem no facebook:



Como, em sã consciência, uma pessoa adulta e de bom senso pode considerar esse CRIMINOSO como símbolo de seu time? Nem preciso repetir tudo que já disse sobre ele ontem. Mas me assusta muito que o corinthiano se esqueça de tudo que a administração Dualib-Sánchez fez com seu clube.
Se esqueceram da humilhação do descenso?
Pão e circo: uma Libertadores basta para qualquer corinthiano perder a noção crítica.
Esse senhor, em breve, pode enfiar a máfia russa de novo dentro do Corinthians, sabia?
Não, não sabia. Pois o que te importa, torcedor alienado, é soltar rojão e gritar a plenos pulmões a vitória de um futebol podre. Um futebol que nada tem a ver com o que se esperaria do clube que deu origem à Democracia do Doutor Sócrates, como disse ontem.

Outra das coisas que meu amigo criticou é que não dei espaço em meu texto para comentar sobre a discriminação sofrida por corinthianos, historicamente, por ser um time ligado às classes mais populares do país.
O Corinthians é time de pobre. E por isso muito corinthiano, como ele mesmo expressou, já foi vítima de assédio moral e violência (até física). Isso é preconceito de classe e está na origem do anti-corinhianismo.


Mas qual são paulino não sofreu "bullying" por causa de seu time? Quem nunca foi tratado como "bambi" e desrespeitado? Pra começar, desqualificar qualquer pessoa por ser pobre ou gay é crime e ponto final. E usar essa qualificação como ofensa é pior ainda! Não é um absurdo a zoeira que se faz com a sexualidade dos são paulinos? Quem já foi xingado de bambi pra baixo, sabe o quanto isso é uma demonstração clara de que o futebol ainda é o antro de preconceitos e machismo.
O preconceito de classe existe, no caso do Corinthians, mas existem outros preconceitos.
Enfim, eu não parabenizo o Corinthians nem seu torcedor pelo título. Eu parabenizo o Tite e seus guerreiros. Mas nunca parabenizarei quem compartilha e nutre esse jeito errado de fazer futebol. Quem compactua com CBF, Kia, MSI, Globo e outros.
Em qualquer clube, agremiação, time...
E, para terminar, lembre-se, corinthiano, de quem mandou o Tite embora, na sua primeira passagem pelo time, quando esse expulsou dos vestiários do time o Kia da MSI.
http://www.gazetaesportiva.net/blogs/chicolang/2011/07/19/sanchez-sacrifica-volta-de-tevez-pelo-poder-politico/



Se o futebol não tivesse nada de política por trás, essa vitória seria apenas o que ela é: justa e merecida.
Mas a vitória da alienação e da gestão podre do futebol brasileiro não pode ser comemorada. Pelo bem de todos nós.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Libertadores é Cosa Nostra

http://admala.deviantart.com/art/Blind-Deaf-Mute-90007490

Uma coisa que me irrita (porque hoje acordei revoltadinho, bebê) é a sanha de "corinthianice" nesse dia de final. Sei que há uma onda a favor do Boca, aquela que só quer ver o Corinthians perder, que sempre vai ser assim porque a rivalidade futebolística é eterna. Mas há algo mais grave, que os torcedores desse time não percebem, é o quanto todos perdem com essa vitória. A CBF, por exemplo, mudou o jogo Palmeiras e Coritiba pela final da Copa do Brasil de horário em prol da transmissão da Globo da Libertadores. Sim, foi um erro marcar esse jogo para a mesma semana da final do mais importante torneio das Américas - e nem adianta falar em Copa América, só gente inocente acredita nisso -, mas isso não dá a CBF e Globo o direito de prejudicar os times, especialmente o torcedor Palmeirense, que vai ter que ir às 21h50 para o estádio e voltar pra casa sabe-se lá como. A ideia, provavelmente, é não "prejudicar" sua grade televisiva (= novelas) com duas transmissões de jogos em seguida, quando sabe-se que a transmissão da final da Copa do Brasil não terá tanta audiência quanto o jogo da Libertadores.
Mas eis que, para o espanto geral, a Globo decidiu não transmitir o jogo da Copa do Brasil! Como diz a notícia, querem evitar que o jogo prejudique a audiência da estreia da mais nova bobagem do Pedro Bial (que um dia já foi jornalista) e da novela Gabriela. Como sabemos, desde a ditadura quem define os campeonatos e suas tabelas é a Globo, não por acaso, sempre temos jogos de Corinthians em "dias de transmissão", quarta-feira e domingo. Tanto que as pessoas nem param pra pensar que foi a própria Globo quem criou esse hábito de que jogos de futebol são sempre nos mesmos dias e horários.
O site Verdazzo publicou uma manifestação de repúdio à decisão da Globo, o que pode soar como birra de palmeirense para alguns. Mas se fosse o seu time o prejudicado, você também não ficaria enfurecido? Além do que, como rival histórico, a promoção do Corinthians é a maior violência que poderia ocorrer contra um palmeirense.
http://mariangela-variedades.blogspot.com.br/2010/09/mais-voce-presta-homenagem-ao.html
Na verdade, eu afirmo mais: na sua gana de salvar a sua moribunda audiência e seus parceiros comerciais de erros estratégicos diversos cometidos nos últimos anos, a Globo transformou o Corinthians em inimigo público nº1. Não que antes os torcedores não torcessem contra, mas o verdadeiro ódio contra o time e o torcedor do Corinthians cresceu mesmo desde a vitória do Mundial em 2000. Quer tirar a prova é só entrar no facebook, o melhor termômetro do comportamento humano atual, para ter a noção de que as provocações em geral tem um gosto de amargura, a que o torcedor corinthiano cego classifica como inveja. Essa amargura acompanha o torcedor brasileiro em geral há anos, mas cresceu muito desde que "ousaram" dizer que o Corinthians era o único time ganhador de um mundial interclubes. Isso ofendeu principalmente os torcedores de São Paulo e Santos, até então únicos detentores do título no estado, e de Palmeiras, há anos lutando pelo título e que já tinha ganho algo que o Corinthians ainda almejava: a tal Libertadores. Como um time que não passou pelo torneio americano pode se dar ao luxo de se dizer Campeão do Mundo? A incompetência da Fifa serviu apenas de combustível para a rixa.
Mas a "corinthianização" da mídia não seria nada se a CBF não contribuísse para tanto. Com o elefante branco chamado Itaquerão realizou-se um duplo crime: sobre a esperança do Corinthiano em ter seu estádio oficial - e que cruel é jogar com as esperanças dos homens -, construiu-se um duto de escoamento de dinheiro público muito útil aos cartolas e políticos interessados na Copa do Mundo. E com um garoto propaganda como o Lula, nada pode dar errado né? Até porque ele só é garoto propaganda de algo, pra mídia, quando sua figura "popular" pode "vender" alguma coisa.
http://esportes.r7.com/blogs/cosme-rimoli/tag/andres-sanches/
O Itaquerão não é o único exemplo de desmando da CBF, óbvio, ela é historicamente uma instituição podre. Mas a partir do momento que CBF e Globo se aliam, a coisa fica feia. A Globo defende a CBF como quem defende um filho, isso todo mundo sabe. Nessa, a escolha dos estádios da copa ficou totalmente enviesada em prol dos mandos políticos, baseada na incompetência política de dirigentes dos outros clubes brasileiros e na esperteza de um certo Andrés Sanchez.
Andrés é esperto, cobra criada. Ao virar gente graúda, fez o que quis da CBF, ou seja, botou o Mano Menezes na seleção e conquistou apoio para o Itaquerão. Assim, da mesma forma, fez o seu time crescer em importância econômica e política, coisa relegada aos cariocas ou aos playboys do SPFC. O Corinthiano se esquece que esse iminente fumante é cria do mafioso Dualib, e que eles foram reponsáveis por instalar a máfia russa, trazendo MSI e Kia pro time. A ilusão de Carlitos Tevez culminou num rebaixamento, a maior vergonha para o Corinthians em sua história. Mas, tal qual os três macacos sábios, não se ouve, vê nem se fala nada. E, claro, com o sucesso do Corinthians, as figurinhas carimbadas reaparecem. Se o time está ganhando, ninguém se importa com corrupção, seja no futebol, seja na política. O rouba mas faz não é exclusividade do mais novo aliado do Lula.
Em matéria muito reveladora do caráter do Sánchez e das diretrizes tomadas nas decisões por trás da Copa do Mundo, temos a seguinte situação, em matéria da Revista Época (e reproduzida daqui):

“Não aguento mais essa p...”, gritou Sanchez, em sua sala de presidente, numa fria manhã de setembro. “Fico aí, me matando, e ainda sou chamado de ladrão.” O palavrão designa o clube com uma das maiores torcidas do Brasil. Mas é apenas um desabafo. No fundo, Sanchez é um sujeito profissionalmente feliz. Sabe que faz a gestão mais produtiva da história do clube. Controversa, sim. Mas vai deixar um legado inegável: um centro de treinamento que custou R$ 50 milhões e é o mais moderno da América Latina, a terceira camisa mais valorizada publicitariamente em todo o mundo e o clube brasileiro que mais arrecada com propaganda. De acordo com a consultoria financeira Crowe Horwath RCS, cujo sócio brasileiro é o vice-presidente de finanças Raul Correa da Silva, a marca Corinthians passou a ter o maior valor de mercado do futebol brasileiro: R$ 867 milhões. O Corinthians ainda terá, em dois anos, um estádio próprio na Zona Leste paulistana, o Itaquerão. Ele está sendo construído pela Odebrecht – ao anunciado custo de R$ 780 milhões. Sanchez aposta que será lá o jogo de abertura da Copa do Mundo de 2014. Ao ser perguntado sobre o Itaquerão, obra que só vai sair graças a um financiamento a juros baixos do BNDES e a incentivos fiscais dos poderes públicos, Sanchez travou o seguinte diálogo com o repórter de ÉPOCA: 
– Quem fez o estádio fui eu e o Lula. Garanto que vai custar mais de R$ 1 bilhão. Ponto. A parte financeira ninguém mexeu. Só eu, o Lula e o Emílio Odebrecht (presidente do Conselho de Administração da Odebrecht).
– O dia em que essa história vier a público, vai ficar feio para quem?
– Não vai ficar feio pra ninguém. Vai ficar, talvez, não imoral, mas difícil para o Lula.
– Por quê?
– Porque vão falar: “Pô, como é que uma empreiteira se submete a fazer isso? Por que o presidente pediu?”. É o que insinuam até hoje.

http://www.quidnovi.com.br/novo/noticia/detalhe.asp?c=6758&t=R
As propícias e suspeitas alianças tem dedo de mais gente graúda. O primeiro é Ronaldo, que de jogador em fim de carreira se tornou influente empresário e mediador de várias tramoias do meio. Ele assumiu a carapuça, virou ecude de Andrés e Ricardo Teixeira, e não aprece se sentir desconfortável com isso. Ainda mais que é amigo de gente muito influente e perigosa, como os supracitados, além de Luciano Huck, o braço mais tucano - e também global - desses criminosos. Eles formam um bloco de bastidores muito firme e que emprega todos os esforços pra ganhar dinheiro e cada vez mais influência política no meio não apenas futebolístico, mas midiático também. Afinal de contas, o narigudo apresentador é figurinha fácil em todas as páginas de facebook no Brasil, né? 
E o termômetro do sucesso do Corinthians é o ibope da Globo, que mesmo com o projeto centenário fracassando continuou em alta. E os bastidores dessa final são assustadores de acompanhar. Com a entrada da Fox Sports no mercado das tvs por assinatura, o filhote esportivo da Globo na tv fechada, o Sportv, perdeu muita força. A Fox exigiu os direitos de transmissão da Libertadores, o que gerou toda uma celeuma que quase culmina na não entrada do canal na tevê por assinatura no Brasil, o que demonstra a influência que a Globo tem. Perdendo boa parte do campeonato e a sua audiência, a Globo tomou um violento golpe na sua já decadente audiência. E teve que reagir.
Com jogos de outros times (como o próprio Palmeiras) atingindo abismos de 12 pontos de audiência, e jogos como o Corinthians e Vasco atingindo 34, fica evidente o porque da Globo achar que o Corinthians é "o Brasil na Libertadores". Daí você vê que o jogo contra o Santos rendeu 43 pontos, melhor audiência da Globo desde 2010, e que o da Bombonera deu 42... não tem como ficar alheio a esses dados. Ainda mais quando você quem está ganhando dinheiro com isso (dados do Cosme Rímoli).
E tome Corinthians na tv: Romarinho virou o novo Neymar, Galvão deixou de ser vascaíno e virou Corinthiano, e hoje de manhã, até o Louro José está fazendo propaganda do Corinthians. 
Pra mim, o Corinthians é o favorito ao título, pois o maior craque desse time se chama Tite, o técnico em seu melhor momento no Brasil e no auge de sua carreira. E não se assuste se, numa cartada genial, o Tite assumir a Seleção depois do fracasso do time de Mano nas Olimpíadas. Até porque, já que essa competição foi tirada da Globo, ela não mais interessa, né? É até melhor que o time perca, daí o Corinthians ganha o Mundial e o Tite vira o técnico pra copa.
http://www.paraiba.com.br/2012/06/29/00455-dani-bolina-faz-camisa-do-boca-juniors-de-pano-de-chao-em-ensaio
Não é birra de São Paulino, porque se meu time não está aí é por uma gigantesca incompetência de sua diretoria. Sou o primeiro a atacar Juvenal Juvêncio e sua gana pelo poder, e torço de verdade para que meu time perca esse Brasileiro e mude alguma coisa na sua política, antes que seja tarde demais e aconteça o que aconteceu com Corinthians, Palmeiras, Grêmio, etc. Mas o Corinthians e sua diretoria são reincidentes e estão, junto da CBF e dos cartolas de outros clubes (Juvenal incluso) pisando sem dó no brasileiro. Esse povo que apoia as torcidas organizadas, que se envolve em política pra roubar descaradamente, que tem rolo com bandidos, é o povo que manda no futebol brasileiro. E, como o velho recurso do pão e circo, a vitória do Corinthians só servirá pra levantar a bola da tão criticada Copa do Mundo, justificando cada insensatez desse projeto maluco.
O problema é que o corinthiano não lerá esse texto como algo além de "birra de bambi". Ele não reconhecerá nada do que eu disse como algo ruim, como algo deplorável na verdade. Ele continuará, pela paixão cega e burra, alimentando esse círculo vicioso de intrigas e desmandos. Ele vai apoiar seu time até onde for, e eu entendo, pois é isso que um torcedor deve fazer. Provocar, aliás, é a alma do futebol. Não vou torcer pelo Boca apenas pelo descrito acima, mas também porque sou de uma torcida rival, é óbvio. Só que ser torcedor não me faz um alienado, um burro que empaca na própria ignorância e deixa se levar pelo discurso do "é campeão". Você, antes de ser torcedor é um ser pensante. O que leva meu irmão, por exemplo, a me questionar enquanto eu escrevo esse texto se eu tenho meu endereço real divulgado na internet. Sim, pois, o medo dele é que eu fosse agredido ou coisa pior por escrever um texto como esse. Ele sabe que a maioria das pessoas que age por paixão age de maneira irracional, e não tira a camisa de torcedor quando precisa refletir com parcimônia sobre as coisas. 
Eu sei que existem corinthianos conscientes, porque uma nação como essa produziu gente como o grande Sócrates. É uma nação grande, que merece ser respeitada e tratada com a importância que tem. Mas há muito tempo faltam os pilares básicos da democracia aos que gerem o clube. A vitória do Corinthians será a vitória de um jeito errado e criminoso de gerir um esporte. O Corinthiano MERECE uma Libertadores, o Tite merece, o Romarinho, o Danilo, o Jorge Henrique, o Cássio... mas o Brasil não merece a perpetuação desse modus operandi.

Ainda bem que o Magrão morreu antes de testemunhar o que estão fazendo com seu clube.

http://www.criativodegalochas.com/2011/12/04/socrates-saiba-tudo-sobre-a-vida-e-carreia-do-doutor/